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Voando nas asas da pandemia

Ontem, depois de um jejum de meses, entrei em um avião. Como fazia muito tempo em que não botava meus pés em um aeroporto, preparei-me para um protocolo de segurança do além, especialmente depois que a agente de viagens me sugeriu que chegasse com três (!) horas de antecedência em relação ao horário marcado. Intrigado, comecei a imaginar o que poderia requer um prazo tão dilatado de antecipação e não consegui produzir uma resposta plausível. Assim, resolvi arriscar e chegar com duas (!) horas de lambuja.

Ao pisar em Congonhas, parecia que tinha voltado no tempo, quando ia viajar durante a minha infância. Aquele local nervoso, lotado de passageiros andando rápido para lá e para cá, pertence ao passado (pelo menos, provisoriamente). O público que fica zanzando nos corredores, hoje, deve ser de 15 a 20 % daquele que circulava nos dias pré-pandemia.

Confesso que imaginei um grupo de pessoas uniformizadas borrifando desinfetantes no ar e postos de álcool em gel a cada dez metros. Doce ilusão. Não há uma só estação para desinfetar as mãos fora dos estabelecimentos comerciais. É como se a pandemia não fosse um problema também da Infraero ou do encarregado pelo funcionamento de Congonhas.

Percebi que estava sem dinheiro vivo e me dirigi ao subsolo para procurar um caixa eletrônico. Tive a minha segunda surpresa. Antes, havia uma fila de dez quiosques do Banco 24 Horas. Agora, por conta da redução de frequentadores, existe apenas uma. Neste local, por sinal, há tão pouca gente circulando que me senti um tanto inseguro de manusear cédulas em público. Mas a minha hesitação não chegou a durar cinco segundos. Um agente de segurança, postado a alguns metros do caixa eletrônico, era um sinal inequívoco que o ambiente estava controlado.

Entrei na zona de Raio-X sem que tirassem a minha temperatura – um hábito com o qual me acostumei ao ingressar em qualquer estabelecimento público. Como possuo uma prótese de titânio no quadril direito, sempre provoco uma barulheira danada nos pórticos que detectam metais. Por isso, tenho sempre de passar por uma inspeção obrigatória. Notei, neste momento, uma diferença crucial no atendimento dos funcionários.

Tirando uma vez ou outra, dificilmente sou mal tratado por essas pessoas. O tratamento é cortês, mas profissional, beirando a frieza. Desta vez, no entanto, fui brindado com uma cortesia ímpar e, como tinha tempo sobrando, conversei um pouco com a equipe que estava me atendendo. Eles se mostraram muito preocupados com o fato de que não havia ninguém para tirar a temperatura dos passageiros ou mesmo distribuição de desinfetantes nas áreas de circulação. Para quem precisa lidar diretamente com o público, isso de fato deve ser uma tremenda preocupação.

Já na zona de embarque, o aeroporto parece às moscas. Muitas das lojas lá instaladas estão com as portas fechadas e vários quiosques estão cobertos. Há pontos que foram desmontados e receberam tapumes em suas fachadas. A explicação é óbvia. A quantidade de lojinhas e pequenas lanchonetes se justificava apenas pela altíssima circulação de pessoas durante o expediente. Agora, no entanto, há tão pouca gente que os avisos pelo sistema de som, os quais sempre tive uma certa dificuldade de entender, são ouvidos com uma clareza ímpar. A moça que iniciou o meu embarque, por exemplo, nem usou o microfone: abriu a entrada e chamou as prioridades por lei.

Quando embarquei, mais uma vez imaginei que me tomariam a temperatura. Ledo engano. Sentamos todos e o voo estava lotado, sem nenhum espaçamento entre poltronas. Os comissários sempre lembravam a necessidade de todos mantermos o uso das máscaras e, pontualmente, saímos no finger no horário marcado.
Ao passarmos pelo pátio auxiliar, onde inúmeras vezes embarquei e desembarquei através de ônibus, percebi que as poucas aeronaves que lá estavam tinham suas turbinas cobertas – sinal de que o uso daqueles aviões não estava sendo frequente. Meu voo seguiu em frente e não aguardou, ao contrário do que ocorria antes, para decolar. A pista estava livre e levantamos voo, em direção ao Santos Dumont.

Quando chegamos, tive a primeira reação positiva de espanto. Os comissários avisaram que todos os passageiros deveriam aguardar em seus lugares, pois o desembarque seria feito pelo número de fileiras, tendo início pelo início do avião. Assim, pela primeira vez em minha vida, não assisti a manifestações explicitas de ansiedade dos passageiros, que sempre pulam de seus assentos assim que as turbinas são desligadas (às vezes, até antes que isso ocorra).

Confesso que gostei da experiência, pois o aeroporto vazio é um local bem mais agradável do o que aquele dos tempos de lotação absoluta. Mas tenho noção que, do ponto de vista econômico, esse tipo de situação não poderá perdurar, sob pena de um eventual naufrágio da indústria do turismo, o que não podemos deixar ocorrer. Mas se toda a crise traz um legado, talvez esse novo método de desembarque devesse ser adotado para sempre. É mais ordenado e traz uma sensação de calma a todos os passageiros. As companhias aéreas conseguiram encontrar uma fórmula civilizada e ordeira de tirar seus passageiros das aeronaves. Palmas para elas.

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