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Retrospectiva COVID-19: o que aconteceu em um ano de coronavírus?

Desde o surgimento do novo coronavírus (SARS-CoV-2), são mais 80 milhões de casos confirmados da COVID-19 registrados em todo o mundo, sendo que 1,7 milhão dessas pessoas foram ao óbito em decorrência da infecção, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pandemia já alcançou mais de 190 países, inclusive em estações da Antártida. Realmente, é impossível não definir o ano de 2020 de outra forma que não seja o ano deste novo agente infeccioso.

Se, por um lado, foi um ano extramente desafiador para os profissionais da saúde, os cientistas e, principalmente, as pessoas comuns, a ciência nunca avançou tanto — e em tão pouco tempo — como nos últimos meses. De uma pneumonia misteriosa até as primeiras vacinas (já distribuídas) contra a COVID-19, o mundo melhorou muito no combate ao SARS-CoV-2. Nesse cenário, inúmeras pesquisas aproveitaram ao máximo da Inteligência Artificial (IA), da machine learning, da robótica e da colaboração entre países. Inclusive, os pesquisadores das universidades brasileiras lideram o ranking de produção de conhecimento científico na América Latina.

Novo coronavírus foi um dos assuntos mais debatidos em 2020 (Imagem: Reprodução/ Viktor Forgacs/ Unsplash)

A seguir, confira a retrospectiva que o Canaltech preparou sobre o ano do coronavírus, desde a evolução dos primeiros casos da COVID-19 até as previsões para o próximo ano.


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“Vírus chinês” 

No último dia de dezembro de 2019, as autoridades chinesas de Wuhan, na província de Hubei, confirmaram dezenas de casos de pneumonia com uma causa desconhecida. Responsável por causar febre, tosse, falta de ar, perda de olfato e paladar, dificuldades respiratórias, esse agente infeccioso foi chamado muitas vezes de “novo vírus chinês”, em referência à origem dos primeiros casos, já que o primeiro epicentro de casos da doença misteriosa foi um mercado de animais silvestres no país, mas o título xenófobo foi logo abandonado.

A epidemia do coronavírus começou a se espalhar e, ainda em janeiro, casos foram notificados em vários países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, e até mesmo nos Estados Unidos. Conforme novos casos aumentavam, pesquisadores identificaram que se tratava de um novo tipo de coronavírus, o nome pelo qual ficou mais conhecido e é também mais correto. Até que, no dia 11 de fevereiro, a OMS declarou o nome oficial da infecção: COVID-19. Na época, a doença já levara ao óbito mais de mil pessoas. Naquele mês, várias empresas cancelaram viagens internacionais de seus funcionários. O Google e a Apple fecham suas unidades chinesas por medidas de precaução, por exemplo. Até mesmo fábricas, como da Hyundai, na Coreia do Sul, precisaram parar linhas de produção, pela falta de materiais importados da China.

Primeiros casos no Brasil e lockdowns

Era dia 26 de fevereiro, quando o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso do novo coronavírus no Brasil e, por consequência, o primeiro da América Latina. O paciente número um da COVID-19 no país era um homem, de 61 anos, morador da cidade São Paulo, que acabara de chegar da Itália, onde contraiu a infeção. Pouco mais de 30 dias após a primeira notificação da doença respiratória no Brasil, o mundo pareceu dar uma guinada de 180°.

Primeiro epicentro do novo coronavírus, a China chegou a zerar, por um tempo, novos casos locais da doença e começou a monitorá-los individualmente. Para isso, medidas de distanciamento social se tornaram obrigatórias no gigante asiático, como controles de fronteiras e lockdown, além de grandes campanhas de testagem. Inclusive, um hospital inteiro foi construído em apenas 10 dias para o tratamento dos pacientes infectados e, principalmente, atender os suspeitos de contaminação.

Para combater a COVID-19, vários países adotaram o lockdown (Imagem: Reprodução/ Gabriella Clare/ Unsplash)

Enquanto isso, a OMS declarou a situação da COVID-19 como uma pandemia — quando vários os países do globo são afetados pela mesma doença — no dia 10 de março. Alguns dias antes, no dia 8 de março, a Itália já decretara lockdown para colocar em quarentena cerca de 16 milhões de pessoas na região do norte da Lombardia, que envolve as cidades de Milão e Veneza. Isso porque, nesse meio tempo, a Europa, com especial destaque para a Itália e a Espanha, se tornou o novo epicentro do coronavírus, sendo logo substituída pelos Estados Unidos e, no futuro, por todo continente americano.

Brasil contra a COVID-19

No dia 20 de março, o Brasil decretou estado de calamidade pública no país e, dessa forma, foi possível autorizar o aumento de gastos no combate ao novo coronavírus, além de outras medidas contra o contágio. Afinal, da mesma forma que os outros países no globo, os casos da COVID-19 começaram a aumentar também no Brasil. Nesse cenário, o estado de São Paulo foi o primeiro a adotar medidas preventivas para conter a disseminação do vírus.

Até que, no dia 24 de março, todos os 645 municípios do estado de SP entraram em quarentena. Em outras palavras, todos os serviços considerados não essenciais, como shopping centers, comércios e restaurantes, foram fechados. Todos os eventos foram cancelados e as escolas fechadas — em dezembro, essas atividades ainda seguem inúmeras com restrições. Na época, circulavam inúmeras fotos da capital quase vazia, como essa da Avenida Paulista, que você vê abaixo. De forma paralela, outros estados adotaram as mesmas medidas de contenção contra a COVID-19.

Ruas de São Paulo ficaram vazias durante o início da quarentena contra a COVID-19 (Imagem: Fidel Forato/Canaltech)

Em acordo com as operadoras de telefonia móvel, a taxa de isolamento foi acompanhada em quase todo o país. Durante os primeiros momentos do combate à COVID-19, a maioria das medidas foi de distanciamento foram respeitadas, principalmente o cancelamento de eventos, a proibição de aglomerações e o uso das máscaras, quando a pessoa estivesse em alguma atividade essencial. Desde o decreto sobre o estado de calamidade, o Brasil teve uma dança das cadeiras que contou com três ministros da Saúde.

Mesmo com os esforços contra a COVID-19, no dia 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil óbitos em decorrência da infecção em um intervalo de 24h. Na atualização, foram somadas 1.179 mortes e 17.408 novos diagnósticos positivos para a doença. No total, o país já somava 271.628 casos, sendo 17.971 óbitos. No dia 29 de junho, quatro estados brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Pará) já ultrapassavam a marca dos 100 mil casos da doença respiratória, cada. Era mais de 1,3 milhão de casos, sendo 58,3 mil óbitos.

Foi um longo período de alta de casos da COVID-19 até que, no dia 19 de agosto, o Brasil começava a apresentar os primeiros sinais de desaceleração da transmissão, segundo estimativas da Universidade Imperial College, do Reino Unido. Com esse aparente controle da infecção, as medidas de distanciamento e o uso de máscaras — não oficialmente — foram relaxadas aos poucos. Inclusive, drones sobrevoavam (e registravam) aglomerações em praias brasileiras, durante os finais de semana.

Mesmo em quarenta, praias lotaram de banhistas durante os finais de semana e feriados (Imagem: Reprodução/ Buda Mendes/ Getty Images)

Atualmente, o país enfrenta uma segunda onda da COVID-19, conforme apontam especialistas da área de saúde. Inclusive, mais de mil óbitos (1.091) pela infecção foram registrados no dia 17 de dezembro pela primeira vez em 24h, desde setembro. De acordo com o Conass, são mais de sete milhões de casos do coronavírus diagnosticados, sendo mais de 190 mil óbitos. Outros países, como os do continente europeu, também enfrentam a segunda onda e, inclusive, adotaram o lockdown, como o Reino Unido. No cenário global, o país mais atingindo segue sendo os Estados Unidos, tanto em casos quanto em óbitos.

Ondas de fake news e as redes sociais

As fake news também foram um grande desafio para o combate da COVID-19 e causaram uma série de problemas. Segundo a pesquisadora e jornalista Cristina Tardáguila, existem ondas de desinformação e que podem ser definidas, conforme os primeiros casos da infecção por coronavírus chegavam até mais diferentes regiões do globo. Nesse cenário, existem pelo menos nove ondas de desinformação já rastreadas e algumas ainda em andamento. Veja:

  • Primeira onda: as fake news se referem à origem do coronavírus, como a história sobre a sopa de morcegos. Também entram nesse recorte as diferentes “teorias” sobre o vírus ter sido desenvolvido em laboratórios, como na China ou ainda na Rússia;
  • Segunda onda: gira em torno de vídeos e fotos com legendas falsas ou com conteúdos editados de forma estratégica, como pessoas infartando dentro de shoppingse de forma a se entender que a COVID-19 causasse morte súbita;
  • Terceira onda: são os falsos tratamentos e métodos de prevenção que vão desde substâncias inócuas (como chás e vitaminas) até práticas como ingerir álcool puro contra a COVID-19. Esta é uma onda que segue ativa e “é muito perigosa”, segundo Tardáguila;
  • Quarta onda: a desinformação está acompanhada de sinofobia, ou seja, sentimentos contra a China. Nesse ponto entram uma série de ataques contra o país, suas pesquisas e, inclusive, suas vacinas, como a CoronaVac. Também é uma onda que persiste;
  • Quinta onda: os conteúdos são sobre supremacias tanto raciais quanto religiosas. Sobre este tópico, circularam informações de que os africanos, supostamente, fossem mais resistentes ao coronavírus, por exemplo. No mundo árabe, circularam informações de que os muçulmanos estariam protegidos. “Uma tentativa de misturar a doença com supremacias de vários tipos”, explica a pesquisadora;
  • Sexta onda: a desinformação esteve muito conectada aos e-commerces e à vida online. Entram nessa categoria as falsas companhas contra a COVID-19 e até mesmo doações para instituições que não existem. Além disso, há a venda de fórmulas mágicas contra o coronavírus e até táticas de phishing. Ainda permanece ativa;
  • Sétima onda: é a politização total da COVID-19, o que envolve desde políticos até oposicionistas. Nesse caso, são classificadas situações onde um representante político divulga informação não checada sobre saúde pública. Também entram ataques contra as autoridades, a partir do uso político do coronavírus. O movimento ainda persiste;
  • Oitava onda: as fake news são sobre as condições de reabertura, após uma quarentena ou lockdown. “Os checadores viram muito como se manipula estatísticas, como é que você força os números para eles dizerem o que você quiser”, comenta a pesquisadora. “Vimos comparações absurdas como comparar um mês com um ano, comparações geograficamente desproporcionais, como comparar cidades com países. Não chega a ser falso, mas é errado estaticamente”, completa Tardáguila sobre a onda que segue ativa;
  • Nona onda: é sobre o movimento antivacina e desinformação acerca de supostos efeitos adversos, como mutações nas pessoas, causas de infertilidade e aparecimento de outras doenças. Também entram alegações de que as vacinas seriam feitas com fetos ou com tumores. Novamente, é uma onda que segue mais forte do que nunca.

Diante da pandemia, Facebook, YouTube e até mesmo Twitter já anunciam que podem remover determinados conteúdos falsos sobre a COVID-19. Entre elas, uma parceria entre o TikTok e a ONU originou a #EquipeHalo, onde pesquisadores de diferentes instituições — como USP, Harvard, Imperial College London e Wits University — debatem e desmitificam as vacinas contra o coronavírus e a doença.

Vacina histórica em toda a medicina

Vacinas contra a COVID-19 foram desenvolvidas em menos de um ano da pandemia (Imagem: Reprodução/ Daniel Schludi/ Unsplash)

Após um ano da corrida em busca de uma vacina contra o coronavírus, o mundo já conta com as primeiras a cruzarem a linha de chegada e países — como os Estados Unidos, a Rússia, o Reino Unido, a China, o Chile — já começaram a vacinação de suas respectivas populações contra a COVID-19. Entre os imunizantes que já possuem alguma autorização de uso, se destacam:

  • A vacina da farmacêutica norte-americana Pfizer com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech;
  • A fórmula da farmacêutica norte-americana Moderna;
  • A Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Gamaleya, na Rússia;
  • A CoronaVac, formulada pela farmacêutica chinesa Sinovac.

As vacinas contra a COVID-19 são uma das conquistas mais comemoradas neste ano, já que devem efetivamente controlar a expansão do coronavírus pelo mundo. Inclusive, foi um feito histórico esse desenvolvimento em um período tão curto de tempo, inferior a um ano. Isso porque pesquisadores da China já compartilhavam, de forma digital, o sequenciamento genômico do novo agente infeccioso assim que o identificaram e cientistas de outros países começaram a estudá-lo, antes mesmo dos primeiros casos chegarem às suas respectivas regiões.

Já em março, por exemplo, a farmacêutica Moderna testava o seu imunizante nos primeiros voluntários humanos. No Brasil, em junho, começaram os testes com a fórmula da farmacêutica AztraZeneca, desenvolvida com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Em julho, o estudo clínico do imunizante CoronaVac, em parceria com o Instituto Butantan, já selecionava voluntários brasileiros para os seus testes. Mesmo com participação ativa nos testes de quatro imunizantes — somando a de Oxford e a CoronaVac — contra o coronavírus, o país ainda não definiu a data inicial da campanha nacional de imunização, o que deve ser feito em breve.

Remédios ainda não obtiveram sucesso contra a COVID-19, segundo a OMS (Imagem: Reprodução/ Christine Sandu/ Unsplash)

Se por um lado as vacinas obtiveram sucesso na sua corrida, não é possível dizer o mesmo sobre os remédios para prevenção ou para o tratamento da COVID-19. Hoje, os médicos sabem como funciona o organismo de uma paciente infectado e conhecem as melhores estratégias para a sua recuperação, mesmo que nem sempre isso seja possível. No entanto, “a OMS não recomenda a automedicação com quaisquer medicamentos, incluindo antibióticos, como prevenção ou cura para COVID-19”, esclarece a organização, em seu site.

A AstraZeneca, no entanto, vem desenvolvendo, desde agosto, um fármaco à base de anticorpos sintéticos que pode ser a primeira droga anti-COVID do mundo. Funciona assim: ao entrar contato com alguém que está infectado pelo SARS-CoV-2, uma pessoa poderia iniciar o tratamento em até oito dias após a exposição. Chamado de AZD7448, o medicamento é injetável e dotado de anticorpos monoclonais criados em laboratório, capazes de induzir resposta imunológica no paciente — que pode, aliás, durar de 6 a 12 meses. A farmacêutica acredita que, até abril, o medicamento seja aprovado globalmente.

Através da iniciativa Solidarity, que vem coordenando testes para o tratamento ideal em diversos países, a OMS também concluiu que “os regimes de remdesivir, hidroxicloroquina, lopinavir/ ritonavir e interferon parecem ter pouco ou nenhum efeito na mortalidade em 28 dias ou no curso intra-hospitalar de COVID-19 entre pacientes hospitalizados”.

Mais tecnologias contra o coronavírus

Para auxiliar o combate ao coronavírus, uma série de iniciativas também se destacaram para aproximar profissionais da saúde e pacientes, como as teleconsultas, somente autorizadas para médicos devido à pandemia, e os aplicativos de monitoramento. Nesse cenário, o Ministério da Saúde lançou o Coronavírus – SUS, que avisa o usuário caso ele entre em contato com alguém contaminado. Pesquisadores também desenvolveram um app para diagnosticar o coronavírus, a partir de uma radiografia do pulmão. Outra solução, em desenvolvimento, é o diagnóstico da infecção através da tosse do usuário.

Além disso, surgiram várias linhas de produtos que podem inativar o coronavírus, a partir de nanopartículas de prata, como tecidos antivirais, plástico filme e até sacos de lixo. Vale o destaque que foram todas tecnologias brasileiras. Para entender a ação do vírus da COVID-19, centenas de simulações computacionais foram desenvolvidas e, assim, se pensou nas melhores formas de prevenção. Pesquisadores das universidade brasileiras se engajaram na produção de ventiladores pulmonares — um item considerado raro nos primeiros meses da pandemia —, como a equipe da Universidade de São Paulo (USP). Também não poderia ficar de fora os robôs que aproximaram os pacientes, em isolamento, de seus familiares e dos médicos, como o “robô-cão” da Boston Dynamics.

Mesmo que os avanços tenham sido enormes contra a COVID-19, o ano de 2021 ainda deve ser desafiador, já que uma parcela significativa de países, como o Brasil, ainda precisarão controlar a transmissão do coronavírus. Até lá, medidas de distanciamento social — como o home office que, provavelmente, permanecerá —, uso de máscaras e a higienização das mãos serão as principais formas de impedir novos casos da COVID-19. Nesse cenário, as vacinas devem acelerar bastante no controle da pandemia.

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