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“Queremos formar empreendedores cívicos”, diz fundador da escola de política RenovaBR

Um dos grandes problemas da política brasileira é a falta de renovação da classe política. A crítica comum é: são sempre os mesmos. E, para piorar, parte deles está pouco interessada em realmente atuar para o desenvolvimento do Brasil.

Eduardo Mufarej tinha 42 anos quando tirou o que ele chamou de “período sabático cívico” para ajudar a renovar a política nacional. Depois de ser sócio de uma das mais destacadas gestoras de fundos do país, a Tarpon, e presidente da Abril Educação (hoje parte da Cogna), Mufarej criou, em 2017, o Renova BR, uma ideia que, hoje, parece óbvia, mas que foi uma das maiores inovações na política brasileira recente.

O Renova é uma escola para formar e apoiar jovens líderes para a política, ou, como prefere dizer Mufarej, “empreendedores cívicos”.

A iniciativa é apartidária e não visa formar políticos com ideologias de esquerda ou de direita. Em pouco tempo, a escola ajudou a eleger 17 políticos nas eleições de 2018, entre eles os deputados federais Tabata Amaral (PDT-SP) e Vinicius Poit (Novo-SP). Nas eleições municipais de 2020, foram 153 eleitos, entre eles 12 prefeitos, em 123 cidades.

“O Renova trabalha para melhorar a dinâmica do jogo político. Trabalha para oferecer a gente boa e empenhada em fazer boa política uma oportunidade de poder entrar nesse jogo. Atuamos para romper o círculo vicioso do clientelismo e das trocas às escondidas e apoiamos o desenvolvimento de candidatos capacitados”, escreve Mufarej no recém lançado livro “Jornada Improvável – a história do RenovaBR” (editora História Real), em que narra sua trajetória pessoal e profissional que levou à fundação da “escola de política” e os primeiros anos de atuação.

Em entrevista ao InfoMoney, Mufarej contou um pouco da história do Renova e do seu mais novo empreendimento, a gestora Good Karma Ventures, que vai investir em empresas de educação, saúde e resíduos.

Você tinha uma carreira bem sucedida no comando de empresas como a Tarpon e a Somos Educação. Por que decidiu sair para fundar o RenovaBR?

Como eu conto no livro, queria escalar minha “segunda montanha”. A “primeira montanha” foi a primeira jornada, que consistiu em formar uma família e deixar uma marca em negócios bem sucedidos. Estava com 42 anos quando resolvi fechar um ciclo profissional e buscar um novo ciclo. E eu senti que deveria estar mais envolvido com propósito, significado e que colaborasse com o coletivo. Foi uma escolha consciente.

E por que uma escola para jovens políticos?

A escolha se deu a partir da constatação do déficit de liderança que o país tem, principalmente na esfera pública. Vi que há muitas lideranças em potencial, que têm o desejo de participar da política, mas não sabem como fazer ou não têm condições para isso. Elas precisam de um indutor. O

Renova foi criado para atuar como um parceiro de jornada dessas pessoas. O que procuramos são empreendedores cívicos. Da mesma forma que temos empreendedores no setor privado trazendo inovações e novas práticas, queremos criar empreendedores do setor público. O Renova estimula e prepara esses empreendedores cívicos. O Vinícius Poit e o Felipe Rigoni (deputados federais que passaram pelo Renova) poderiam estar criando startups, mas estão empreendendo na vida pública.

Quais foram os grandes desafios nesses primeiros anos?

O primeiro desafio foi mostrar que o nosso programa era eficaz – que conseguia identificar, selecionar e preparar pessoas para serem empreendedores cívicos e que eles conseguissem ingressar na vida pública. O segundo foi preparar os empreendedores eleitos a cumprir os mandatos da melhor forma possível. E diria que, atualmente, o maior desafio do Renova é um desafio posto para o Brasil: ajudar as pessoas a compreender, neste cenário de pandemia e polarização, que política precisa ser mais qualificada e que aventureiros não devem ter espaço. É isso que estamos tentando apoiar.

O Renova prepara líderes de todos os partidos, da esquerda, do centro e da direita. Como fazer isso num cenário de extrema polarização e em que o debate, muitas vezes, descamba para um radicalismo superficial?

O principal desafio é conseguir estruturar o diálogo. É fazer com que as pessoas estejam dispostas a ouvir e serem ouvidas. Isso é uma questão super importante. As pessoas estão dentro de suas bolhas e não há diálogo. Precisamos retomar a capacidade de dialogar. O que o Renova se propõe a fazer é multiplicar a quantidade de pessoas boas na política. Essas pessoas, se eleitas, vão conviver, ainda que tenham ideias diferentes. E vão precisar negociar soluções e dialogar com grupos políticos distintos. Por isso, o Renova acaba atuando como um balão de ensaio da política eleitoral.

Como os jovens são preparados?

São dois momentos. O primeiro é quando o aluno está cursando o Renova antes das eleições. Nessa fase, o treinamento é dividido em três blocos.

No primeiro, nós passamos ferramentas individuais, como liderança, empatia e capacidade de lidar com momentos difíceis. No segundo, discutimos as grandes questões relevantes para o desenvolvimento em nível nacional ou municipal. Mostramos, por exemplo, qual as competências da Câmara de Deputados ou Câmara Municipal. Importante dizer que muitas pessoas se candidatam sem saber o que um deputado federal pode fazer. Não é à toa que vemos tantos projetos inconstitucionais. E no terceiro é a preparação para eles se prepararem como candidatos competitivos, quando aprendem, por exemplo, questões de marketing político.

O segundo momento vem após as eleições. Depois de eleitos, as questões mudam. Fazemos sessões de planejamento estratégico para o cumprimento do mandato para que eles cheguem mais bem preparados e possam trabalhar melhor. De um modo geral, o nível de despreparo é bastante alto. E a política acaba virando terra de aventureiros, de muita gente que não sabe por que está lá.

Quais as qualidades um político, seja de esquerda ou de direita, deve ter?

Depende se for para o Executivo ou o Legislativo. O perfil ideal para um ocupante de uma cadeira no Legislativo é de um formulador de políticas, com capacidade negociar e trazer as pessoas para o seu lado. Um deputado federal tem 512 interlocutores. Já o Poder Executivo demanda capacidade de liderança, tomada de decisão, mobilização e formação de time.

Como será a contribuição do Renova nas próximas eleições?

Estamos com processo seletivo aberto, olhando para o nosso próximo biênio. Tivemos 12 mil inscritos participando da Jornada Renova. Estamos num lugar interessante de expansão do programa, olhando para as eleições de 2022. E o trabalho continua com os eleitos.

As eleições presidenciais do ano que vem se desenhando para uma polarização entre Lula e Bolsonaro. Qual sua opinião sobre essa tendência?

Acho muito cedo para apontar isso. Estamos no meio da pandemia, num cenário econômico desafiador. A população não está com a cabeça nas eleições. A prioridade é outra.

Acredita na possibilidade do surgimento de uma terceira via?

Tenho convicção de que haverá uma terceira via.

Ela virá no Renova?

Não sei, mas acho que a sociedade está muito inquieta e não está confortável com o atual leque de possibilidades. Vejo que, muito provavelmente, vamos ver um caminho alternativo.

Você saiu da presidência do Renova e agora está à frente da Good Karma Ventures. Qual o propósito agora?

O Brasil é um lugar interessante para quem gosta de resolver problemas, pois temos muitos. Acho que podemos contribuir com inovação. Num contexto em que o governo brasileiro tem limitações econômicas e o alcance da filantropia é limitado, acho que a solução para nossos desafios passa por propostas da iniciativa privada. E a Good Karma quer ser a potencializadora dessas soluções.

Em que momento você sentirá que o trabalho do Renova atingiu seu objetivo?

Inicialmente, quando vermos que grande parte das lideranças públicas passaram pelos nossos programas de qualificação. E, por fim, quando constatarmos que o Renova não seja mais necessário e não precise existir. Essa é a grande medida do sucesso.

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