segunda-feira, março 8

Quando a mulher decide escrever novos capítulos

No passado, quando a maioria de nós saía para trabalhar no 8 de março, Dia Internacional da Mulher, era comum encontrarmos por aí algumas homenagens às mulheres, presentes, frases motivacionais. Este ano, o cenário está diferente e acho que pode ser uma boa oportunidade para mudar um pouco esse ritual. E se, em vez das homenagens, compartilharmos a nossa história?

Não necessariamente aquela história com “h” maiúsculo – apesar de, claro, também ser importante lembrar de como as coisas eram diferentes no passado e de como, por exemplo, a mulher brasileira precisou, até 1962, de uma autorização do marido para trabalhar no mercado formal. Me refiro às nossas histórias pessoais.

Em muitas de minhas palestras, encontros, fóruns e por aí vai, costumo compartilhar minha história. Não necessariamente porque acredito que sou um exemplo perfeito a ser seguido, mas porque entendo que compartilhar jornadas é também dividir aprendizado. A minha história não é um guia infalível para o sucesso, essa trilha é complexa demais para ser resumida em alguns passos. Porém, a minha história é uma reunião de episódios que refletem o cenário de uma época, lições não raras vezes aprendidas a duras penas, acertos e tropeços, tentativas e erros. Uma colcha de retalhos com recortes diferentes, mas que, juntos, cobrem a minha passagem pelo mundo. E ainda tem muito tecido para ser costurado!

Talvez, pela minha formação em Psicologia, entendo também que contar uma história tem outra função: a de elaborar.

Quando você consegue organizar sentimentos e traduzi-los em uma narrativa, aquilo se torna mais concreto, mais palpável, mais real. E isso faz com que você entenda melhor a sua história e quem você é.

No caso das mulheres, compartilhar histórias significa tornar algumas experiências mais visíveis, mais concretas e, a partir disso, promover acolhimento e mudança. Você, por exemplo, já terminou o dia exausta, mas sabia que precisava tirar forças de não sei onde para dar conta de outra jornada em casa? Você já se perguntou se precisava falar “mais duro” em determinadas reuniões para passar uma imagem “profissional”? Você já trocou de roupa algumas vezes com medo de que aquelas peças passassem uma mensagem errada? Você já ouviu falar de entrevistas de trabalho em que surge aquela pergunta com desconfiança sobre “você planeja ter filhos em breve”? Eu já.

Não se trata de vitimismo. Falar sobre isso é simplesmente reconhecer que grupos de pessoas diferentes passam por experiências diferentes (experiências não raras vezes injustas) e refletir sobre o porquê. Mais ainda, refletir sobre porque é tão difícil reconhecer nas nossas histórias “algo diferente”. Será que chamamos a dificuldade de vitimismo por que, no fundo, existe o medo de que reconhecer certos episódios “mancharia” o nosso mérito? Diminuiria o nosso sucesso?

Não somos fracas porque reconhecemos nas nossas histórias episódios que deveriam ter sido diferentes, coisas que precisam ser mudadas. Perceber a realidade como ela é e conseguir compartilhá-la com outras pessoas não é, no mínimo, perspicaz? Há sabedoria na forma de encarar a realidade e acho que nós, mulheres, precisamos falar mais sobre isso.

Existe uma realidade que ainda se apresenta no mosaico composto pela imagem das pessoas no Zoom, uma realidade que mostra um retrato em determinados setores e em determinadas áreas, uma realidade traduzida nas estatísticas sobre o mercado de trabalho e uma realidade que, lá no fundo, você experimenta ou já experimentou. Vamos viver no passado, apenas lamentando as nossas histórias? Não. Mas encará-las com as cores reais, traduzi-las para si e compartilhá-las com os outros, principalmente com outras mulheres, é uma forma de tornar real episódios dessas histórias que poderiam ter sido diferentes e, a partir disso, propor novas formas de escrever os próximos capítulos. Melhores capítulos!