sábado, maio 15

Por que o BBB faz tanto sucesso, segundo pesquisadores

A 21ª edição do Big Brother Brasil mexeu com os ânimos de muitos brasileiros. Do início da edição — quando as pessoas tomaram as dores de “vilões” e “mocinhos” — até a final, prestes a ser definida nesta terça-feira, a mobilização na internet foi gigantesca. O Google Trends mostra que as buscas pelo termo “BBB” atingiram seu auge na semana de 25 de abril a 1º de maio, como consequência a picos anteriores já registrados. Segundo a Rede Globo, a temporada quebrou duas vezes o recorde de maior número de votos por minuto em toda a história do reality, com 3,6 milhões e 2,9 milhões de votos por minuto. Diante desse cenário, fica a questão: por que as pessoas se engajam tanto na torcida pelos participantes do reality show?

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Um dos principais pontos para isso é o alcance que o BBB tem. Transmitido em TV aberta — eletrodoméstico presente em mais de 95% dos lares brasileiros, de acordo com dados do IBGE de 2018 — mesmo quem não assiste sabe quando o reality show está no ar. De acordo com dados da emissora, o alcance médio diário do programa foi de 39,8 milhões de pessoas, superando a edição completa do BBB20 em 2,9 milhões de espectadores.

O segundo ponto está relacionado à identificação com os participantes. Para Pedro Paixão-Rocha, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade da UFMG, mostrar “gente como a gente” faz com que mais pessoas prestem atenção ao que está acontecendo e decidam torcer por essas pessoas ao acreditarem que elas estão mais próximas de seu cotidiano. 

“Como o BBB é um programa de longa duração, ao longo do tempo, as pessoas tendem a escolher com quem se identificam, a partir do momento em que veem quem reflete melhor os seus próprios valores. Com as redes sociais, esse comportamento ganha uma duração ainda maior, já que muitos ex-BBBs se tornam influenciadores após o programa e continuam num patamar similar ao de celebridades”, diz.

Nas redes sociais, o BBB 21 teve aumento de desempenho no Twitter, de acordo com dados da Socialbakers, Elife e Gnip. Entre 25 de janeiro e 27 de abril, foram 4.557.360 usuários falando sobre o programa, que publicaram mais de 172,4 milhões de tweets espontâneos sobre o reality show — número 16% maior do que o registrado pelo BBB20 no mesmo período.

A visão dos especialistas também já foi alvo de estudos científicos que comprovaram os argumentos. Um estudo conduzido pela Universidade da Carolina do Norte chamou este fenômeno de “hiperautenticidade”. Ou seja, a mistura entre a própria dinâmica do reality show — com provas e dinâmicas construídas — e do perfil de participantes — pessoas “comuns” — contribui para o sucesso do formato em larga escala, globalmente.

Quanto mais próximos do público, melhor. Outro estudo comportamental mostra que, quanto menos os responsáveis pelos reality shows estiverem direcionados aos interesses comerciais e mais próximos estiverem dos valores culturais da população a que se destinam, maiores são as chances de sucesso.

Isolamento social

A pandemia também exerce seu papel nesse engajamento todo. Há mais de um ano vivendo sob restrições de circulação — e tendo abril como o pior mês da pandemia –, brasileiros veem no BBB uma espécie de válvula de escape da realidade.  

Para Vanessa Di Rienzo, professora do curso de Psicologia da Universidade São Judas, o desejo de pertencer e de se conectar às pessoas aflorou durante o isolamento social — junto à ânsia por vencer uma competição. 

“Num momento de pandemia, em que muita gente tem de ficar dentro de casa, fazer parte de um grupo é um ponto muito importante. Soma-se a isso a facilidade que as redes sociais trouxeram para se aproximar de outros grupos e, também, a facilidade de votar on-line para fazer com que o candidato preferido fique na casa”, diz.

Foi isso que Paloma Martins, dona do instagram @juliette.freireoficiall, fã clube da participante com 170 mil seguidores,sentiu, de certo modo. Ela afirma que foi a primeira vez em que uma identificação forte com um candidato a ganhar o prêmio do BBB aconteceu — e que, pela primeira vez na vida, resolveu criar uma conta no instagram para homenagear alguém dentro do jogo. 

“A pandemia influenciou meu comportamento, de certo modo. Fiquei mais apegada à Juliette e tive mais tempo de buscar notícias e outros fatos para alimentar a conta na rede social. Meus dias ficaram mais leves vendo a força que tem e percebi que não devemos nos perder de nós mesmas nunca. Acredito que a força e a sabedoria da Juliette me deram acalento e coragem”, afirma.

O papel da química no cérebro

Além dos fatores comportamentais, há os químicos. Ao assistir algo que traz prazer, o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor ligado ao modo como expressamos nossas emoções. O cérebro “vicia” na sensação de prazer e sempre tende a pedir mais daquilo — inclusive quando se trata de filmes e séries.

Um estudo recente analisou a correlação entre dopamina e maratonar seriados. Em entrevista à NBC, a médica Renee Carr explica em detalhes como esse mecanismo funciona: 

“Esta substância química dá ao corpo uma recompensa natural e interna de prazer que reforça o envolvimento contínuo nessa atividade. É o sinal do cérebro que se comunica com o corpo, mandando sinais de ‘Você deve continuar fazendo isso!’ Quando você assiste ao seu programa favorito, seu cérebro está continuamente produzindo dopamina e seu corpo experimenta uma sensação semelhante à das drogas. Você experimenta um pseudo-vício no programa porque desenvolve anseios por dopamina”, afirma.

Portanto, parte dos comportamentos dos fanáticos por BBB pode ser explicada por essa sensação constante de busca pela “vitória” do participante de quem tanto gostam e torcem. 

Especialmente em períodos delicados, quando a competitividade entre fã-clubes fica acirrada — como na última semana, às vésperas da final do programa.

E depois que o programa acaba?

Para a professora de psicologia, quem se engaja na votação vive certo “luto” após o fim da edição, com a falta daquele programa com o qual o público estava acostumado a conviver. “Não é necessariamente prejudicial porque, ao longo do tempo, as pessoas tendem a direcionar essa energia e atenção a outras atividades”, afirma.

O outro ponto está relacionado a quem sai da casa e tem que lidar com a pressão do público em cima de si mesmo. Novamente, a vontade de atingir a perfeição tem de ser dosada, mas, na visão da professora, tendem a sofrer mais as pessoas que não fizeram um retrato fiel de suas personalidades dentro do jogo — como se estivessem interpretando um personagem — algo que pode ser facilmente desmascarado do lado de fora da casa.