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Os jovens do século 21 precisam criar a sua Semana de 22

Aluizio Falcão Filho

O início do século 20 foi muito parecido com os tempos que vivemos atualmente. Houve forte questionamento em relação ao uso de vacinas, tornadas obrigatórias pra combater um surto de varíola em 1904; o cenário político era sacudido frequentemente por revoltas; o cenário internacional também fora agitado por conflitos entre potências (que geraram a Primeira Guerra Mundial); e, por fim, tivemos ainda que enfrentar dois anos de pandemia, provocada pela gripe espanhola.

Este quadro acabou gerando um movimento de artistas que começou a contestar absolutamente tudo o que parecia estar ligado ao passado. Entre 1910 e 1921, escritores e pintores como Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Lasar Segall, Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral se uniram a músicos como Ernesto Nazareth, Villa-Lobos e Guiomar Novaes e realizaram vários eventos que negavam o parnasianismo e o atraso estético.

Esse movimento vai crescendo até que três jovens do grupo (Oswald, Mário e Di) se reúnem para realizar a Semana de Arte de 22, três dias que transformaram para sempre a arte brasileira. Com o propósito de difundir o modernismo e romper com o passado cultural, a semana foi realizada no Teatro Municipal e chocou os costumes da época por seu rompimento total com a estética da época. Para se ter uma ideia, o escritor Oswald de Andrade contratou estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco para que arremessassem tomates nele durante a leitura de um poema — apenas para passar um clima de pura anarquia à plateia.

A recepção da crítica, no entanto, não foi das melhores e o conteúdo apresentado naqueles dias só foi reconhecido como revolucionário e de suma importância décadas mais tarde.

Hoje, seria o caso de se perguntar: se houvesse uma semana de 2022, quem estaria no palco dando cara à tapa? Seriam poucos, exatamente como ocorreu em 1922. Mas seria igualmente pertinente questionar: como o público reagiria a esse conjunto de mudanças artísticas tão significativas?

Estamos, evidentemente, em outro patamar tecnológico. Mas, como naquela época, vivemos um embate até mais feroz entre conservadorismo e progressismo. Essas duas correntes se digladiam nos campos da arte, da política, da economia e dos costumes.

E, para embolar o meio de campo, há a possibilidade de combinações entre esses diversos campos – uma pessoa, por exemplo, conservadora em política e em economia, mas extremamente progressista em termos de costumes e na estética artística.

Esse imbróglio tornaria a discussão entre o pretérito e o futuro mais profunda. Mas, ao mesmo tempo, há outro fator que criaria possíveis agressões intermináveis: as redes sociais, verdadeiras teias de propagação de boatos e xingamentos.

Na semana original, Anita Malfatti foi esculhambada pelo escritor Monteiro Lobato, que se tornou uma voz contrária ao modernismo. Se estivéssemos no mundo atual, Lobato poderia ter sido cancelado pelos mais jovens, enquanto Malfatti poderia ser alvo de críticas e de fake news não apenas sobre suas obras, mas também em relação à vida pessoal.

Outro episódio envolvendo um dos ideólogos da Semana, Oswald de Andrade, mostra bem como os ânimos exaltados poderiam criar verdadeiras batalhas campais na internet de hoje. Quando perguntado sobre o que achara da última obra de José Lins do Rêgo, considerado um escritor à moda antiga, Andrade disparou: “não li e não gostei”. Essa frase, precursora das “lacradas” que tanto fazem parte de nosso mundo, poderia representar também o início dos cancelamentos – um fenômeno que vemos com frequência ocorrer ao nosso redor.

Em 13 de fevereiro de 2022, comemoraremos cem anos desse movimento que transformou nossa cultura e influenciou artistas até hoje. Talvez seja a hora de criarmos uma nova Semana. Para sacudir uma cultura brasileira estagnada e vilipendiada por aqueles que temem as mudanças e o vento revigorante dos novos tempos.

A grande dúvida que fica é: será que esses jovens tinham ideia do tamanho deste evento cultural, quase cem anos atrás? Muitas vezes, os artistas estão muito conectados com o seu trabalho que não percebem a importância histórica de determinados momentos. Cerca de treze anos atrás, aproximei a cantora e compositora Rita Lee da Editora Globo (qualquer dia, conto essa história). Deste episódio frutificou uma relação que propiciou uma carreira de escritora para essa mulher que é ícone do rock brasileiro.

Tive o privilégio de engatilhar algumas conversas com Rita durante os dias em que me debrucei sobre seu projeto, um livro de arte no qual humanos e animais invertiam seus papéis na sociedade – e me lembro de uma história que ela me contou. Ela estava com Caetano Veloso e Gilberto Gil no momento em que os dois estavam compondo “Panis et Circenses”, canção que seria gravada pelos Mutantes, sua banda naquela longínqua década de 1960. Rita contou alguns detalhes desse momento, ocorrido em um apartamento da Avenida São Luiz, em São Paulo. “Mas eu não percebi que uma parte importante da música brasileira, do Tropicalismo, estava sendo escrita naquele momento e que eu era testemunha de tudo isso”, disse.

Talvez aqueles artistas também não tenham conseguido perceber que estavam realizando algo que seria discutido por anos a fio – e admirado por gerações. Estamos vivendo um momento histórico com algumas semelhanças de cem anos atrás. Está na hora de essa nova geração cavar seu lugar na história e promover sua própria revolução estética, nem que seja para fazer aquilo que os jovens sabem fazer de melhor: contestar o conservadorismo de seus pais. E, com isso, se expressar de um jeito que vai moldar a linguagem artística por boa parte dos anos que nos aguardam à frente.

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