sábado, maio 1

Internet mundial cresce ao mesmo tempo em que está cada vez menor; entenda

O título pode parecer controverso, mas ele faz todo sentido. Diariamente, o mundo online se expande com novos serviços, mais usuários e cada vez mais atividades disponíveis. No ano passado, o número de sites registrados apenas no domínio .com ultrapassou a soma de 150 milhões. Se colocarmos nesta conta os subdomínios locais e outras tantas extensões, estima-se um número superior a 370 milhões de registros em todo o mundo. É como se cada habitante do Brasil e de Banglash tivesse um website — e ainda sobraria alguns para os países vizinhos.

Só que, pela primeira vez na história, cerca de 25 anos após o primeiro registro de página comercial, o crescimento da internet começa a desacelerar. O mundo chegou ao ápice da curva de crescimento e agora tende a reduzir esses números. Pelo menos é isso que afirma uma pesquisa publicada na Public Library of Science e conduzida por profissionais especializados que dedicaram anos das suas vidas para analisar as tendências globais dos domínios online.

O estudo é assinado por Paul McCarthy, Xian Gong, Sina Eghbal, Daniel S. Falster e Marian-Andrei Rizoiu, todos integrantes da School of Computer Science and Engineering, da universidade de New South Wales, em Sydney, na Austrália. A investigação avaliou mais de 6 bilhões de comentários de usuários no site Reddit desde 2006, além de 11,8 bilhões de tuítes publicados a partir de 2011.


Canaltech no Youtube: notícias, análise de produtos, dicas, cobertura de eventos e muito mais! Assine nosso canal no YouTube, todo dia tem vídeo novo para você!

Somente isso totalizou mais de 5,6 TB de dados de mais de uma década de atividade global. Só para se ter uma ideia do volume, isso é quase quatro vezes mais o tamanho de dados gerado pelo telescópio Hubble, que fez Brian Schmidt e seus companheiros ganharem o Prêmio Nobel de 1998.

Muito nas mãos de poucos

Em que pese a maior pulverização de serviços, a pesquisa descobriu que esses recursos estão nas mãos de grupos cada vez mais dominantes. Ao que parece, o mundo online tende a ser cada vez mais monopolizado, disputado por megacorporações e com menos espaços para entidades novas.

Os cientistas de dados analisaram todos os links apontados para outros sites ou serviços online para entender como funcionaria a dinâmica do crescimento, da diversidade e do reconhecimento no mercado. Foi constatado que havia uma variedade muito maior de domínios nos links postados no Reddit na década passada, em uma média de 20 diferentes para cada 100 links aleatórios. Agora, este número caiu para apenas cinco.

A curva que demonstra a relação de domínios por link cai ano após ano (Imagem: Reprodução/PLOS One)

Algo entre 60-70% de toda a atenção nas principais plataformas de mídia social está voltada para apenas dez domínios populares. A autoridade, influência e visibilidade dos 1 mil principais sites globais (conforme medido pelo PageRank) estão crescendo a cada mês às custas de todas as outras páginas menores.

Pode-se afirmar, então, que cada novo site que surge fortalece, ainda que indiretamente, os conglomerados dominantes. É como diz o famoso ditado: “é que o de cima sobe e o de baixo desce”.

Opções infinitas, mas pouca variedade

Na verdade, a web começa a se tornar um grande “mais do mesmo”. Você tem 20 opções de redes sociais para usar, mas praticamente todas elas copiam recursos umas das outras. No fim das contas, se analisar um pouco, não faz muita diferença acessar X ou Y em termos de funcionalidades.

Pegue o exemplo do Clubhouse: a rede social de chat de voz que fez um estardalhaço no mercado no fim de 2020. Foi só o app começar a dar sinais de popularidade e todos (absolutamente TODOS) os concorrentes gigantes lançaram recursos iguais ou trabalham em programas similares.

Outro exemplo, esse um pouco mais antigo, é o Snapchat. Alguém ainda lembra que foi ele quem inventou o formato dos stories? A maioria das pessoas acredita que foi o Instagram, pois o modelo se consolidou nesta rede social — que, aliás, foi comprada pelo Facebook com o temor de perder sua força.

Com isso, a internet mundial se torna um ambiente sufocante para inovação e que favorece o domínio de apenas alguns expoentes. As descobertas dos cientistas de dados revelam um paradoxo cuja resposta ainda é incerta: a internet ajuda mesmo a desenvolver negócios ou está escorada em pilares propositalmente criados apenas para fortalecer quem já está no topo?

A resposta é aquela típica de uma boa discussão: nem pra lá, nem pra cá. Na verdade, ela tem os dois papéis simultâneos.

 Novos “tipos” de links surgiram nos últimos anos (Imagem: Reprodução/PLOS One)

O que faz com que a grande rede mundial ainda tenha espaço para inovação são justamente esses “players” diferentões, que de tempos em tempos são sufocados. É essa força contrária ao marasmo monopolista que traz as verdadeiras adições para a vida do consumidor, como os serviços de streaming de vídeo e de música, sites de compartilhamento de arquivos, apps de transporte particular de passageiros, plataformas para troca de mensagens que não dependem de companhias telefônicas, entre muitas outras.

Mas e quanto aos sites?

Há basicamente dois formatos de mídia que remontam aos primórdios da internet, mas que ainda resistem aos tempos atuais: o e-mail, cujo uso vem caindo vertiginosamente ano após ano, e os sites.

Uma das descobertas do levantamento aqui exposto é que estes últimos continuam firmes e fortes na batalha da rede mundial de computadores. Mesmo com tantos serviços competindo pela atenção das pessoas, os sites ainda são fundamentais para a web.

A diferença é que muitos desaparecem com a mesma velocidade que surgem. Embora quase 40% dos domínios criados em 2006 estivessem ativos cinco anos depois, pouco mais de 3% das páginas listadas em 2015 permanecem vivas atualmente. Veja o gráfico:

Note como a média de vida dos sites cai anualmente (Imagem: Reprodução/PLOS One)

Com os sites, as barreiras físicas praticamente deixaram de existir. Antes, ter uma loja de informática perto de casa era uma coisa boa para quem lidava com computadores. Hoje, é possível encontrar preços muito menores em sites gigantescos, o que tem feito vários desses pequenos comerciantes fecharem as portas.

Por outro lado, isso também pode ser uma imensa vantagem para quem sabe como lidar no seu nicho. Não é necessário ter mais um local físico para vender os meus produtos: as maiores lojas de informática do Brasil são 100% online. Precisa de um grande galpão (que pode ser longe dos grandes centros urbanos), um sistema que suporte a demanda e uma equipe qualificada para o ambiente digital.

Ou seja: a internet não é apenas algo para o “público ver” ou uma mera “ferramenta de marketing”. As estratégias na web são parte da economia mundial, inclusive quebrando alguns paradigmas tidos como imutáveis (alô, criptomoedas! alô, bancos digitais!), e coitada da empresa que ainda está apenas no mundo analógico.

Foco na especificidade

O estudo chega a uma conclusão que muita gente já sabe: para se ganhar dinheiro com a internet hoje, é preciso focar em resolver problemas específicos do usuário. Mas é óbvio que não depende só disso, por isso cabe aqui uma reflexão.

Há uma concorrência muito acirrada e até desleal, inclusive praticada pelas grandes detentoras do dinheiro e do poder na web. Duelar contra as megacorporações é difícil, ainda que um serviço seja único: na melhor das hipóteses, elas vão comprar o seu produto para abafar o crescimento, algo que o Facebook fez com WhatsApp e Instagram e tentou com o Snapchat, e o Twitter com o Periscope (que foi descontinuado recentemente) e com o Clubhouse, que recusou uma proposta de compra de US$ 4 bilhões. Na pior das hipóteses, o recurso será copiado descaradamente e a tendência é exterminar o seu diferencial.

Assim era o Instagram em 2011… (Reprodução/Internet Archive)

Faz tempo que não surge algo realmente novo, uma coisa que mude completamente a internet, como ocorreu com os apps de chat ou as redes sociais. Na verdade, pode até ser que alguém já tenha inventado um serviço revolucionário, mas que o usuário nunca descobriu porque o desenvolvedor “morreu na praia”, sem recursos, ou porque foi comprado ainda no estágio inicial por uma gigante e deixado de lado. A centralização é a tendência atual.

Existe espaço para crescer na web, mas aparentemente é necessário correr pela tangente, explorar coisas ainda não experimentadas e contar com uma série de fatores convergentes que não dependem apenas do desenvolvedor. Apesar de todas as maiores empresas do mundo atual terem surgido a partir ideias inovadoras, os tempos eram outros: a concorrência era menor, não havia tantas grandes corporações de mídia e o volume de recursos das grandes companhias de internet eram ínfimos se comparado ao cenário atual.

É importante que todo empreendedor digital tenha consciência do terreno arenoso onde pisa e é este o principal aprendizado que o estudo deixa. Se você se interessa pelo assunto e manja de inglês, não deixe de ler a íntegra do material.

Leia a matéria no Canaltech.

Trending no Canaltech: