quinta-feira, abril 8

Inimigas de Wall Street, as fintechs vivem um boom nos EUA

Em 2009, Shamir Karkal e vários colegas lutaram para arrecadar dinheiro para uma startup bancária, a Simple. Segundo ele, a maioria das 70 empresas de capital de risco que contataram ao longo de um ano não entendeu a ideia. As poucas que compreenderam acharam que ela fracassaria.

No ano passado, as coisas mudaram. Quando Karkal decidiu angariar fundos para sua nova startup de tecnologia financeira, a Sila, que fabrica software de conformidade regulatória, arrecadou US$ 5 milhões em poucos meses com uma fração das tentativas. Ele se diz frustrado com o fato de tudo não ter corrido ainda mais rapidamente. “Conheço pessoas que conseguem rodadas em menos de uma semana.”

A Sila é um dos milhares de startups de tecnologia financeira que aproveitam um frenesi de investidores impulsionado por uma crescente percepção de que o mundo das grandes finanças está pronto para uma reforma tecnológica. Quando a pandemia forçou as empresas a acelerar o uso de ferramentas digitais, incluindo e-commerce e bancos online, a demanda pelo que é conhecido como fintech explodiu.

Agora, startups com nomes como Blend, Brex e Dave, que oferecem experiência bancária, empréstimos e processamento de pagamentos pouco glamorosos estão em alta. Isso foi recentemente notado quando a empresa de pagamentos Stripe levantou US$ 600 milhões em uma rodada de financiamento que levou seu valor a US$ 95 bilhões, o maior de todos os tempos para uma startup privada nos Estados Unidos.

Mesmo pequenas startups financeiras que não apresentaram formalmente seus produtos – como a Zeller, que oferecerá serviços bancários a empresas, e a Sivo, que está desenvolvendo software de empréstimos – conseguiram milhões de dólares e atingiram avaliações de nove dígitos.

No total, os investidores de capital de risco injetaram US$ 44,4 bilhões em startups de tecnologia financeira no ano passado, contra US$ 1,1 bilhão em 2009, de acordo com a PitchBook, que monitora financiamentos privados.

Muitos investidores estão fazendo previsões ousadas de que essas startups vão acabar com os grandes bancos, as provedoras de cartão de crédito bem estabelecidas e, em alguns casos, todo o sistema financeiro.

Segundo Mark Goldberg, investidor da empresa de capital de risco Index Ventures, os bancos são extremamente vulneráveis porque não acompanharam a expectativa dos clientes. Ele previu que US$ 1 trilhão em valor de mercado poderia ser transferido de instituições financeiras tradicionais para empresas de tecnologia nas próximas duas décadas. “É o que a Amazon fez com o varejo off-line. Só está se realizando dez anos depois na fintech”, afirmou.

As startups de tecnologia financeira aproveitam o boom em todos os aspectos. Entre os serviços que oferecem estão contas-correntes, hipotecas, seguros, investimentos, processamento de pagamentos e criptomoedas.

Muitas se valem da desconfiança das pessoas em relação aos grandes bancos, especialmente depois da crise financeira de 2008. Muitas vezes, as startups oferecem aplicativos bonitos e fáceis de usar, sem filiais físicas e com taxas baixas ou sem taxas. E estão se baseando na crescente familiaridade dos usuários com ferramentas tecnológicas e pagamentos digitais que surgiu na última década, mudança que se acelerou na pandemia.

Assim como a computação em nuvem barata e os smartphones uma vez permitiram uma onda de novas startups de aplicativos, o setor de tecnologia financeira desenvolveu estruturas próprias, permitindo que novas empresas surgissem mais rapidamente.

Uma dessas empresas é a Stripe. Fundada em 2010, começou oferecendo serviços de pagamentos para pequenas empresas e startups. Em 2018, valia US$ 20 bilhões e começou a investir em outras startups.

A Stripe agora processa centenas de bilhões de dólares em pagamentos anualmente, expandiu-se para clientes maiores, incluindo Salesforce e Booking.com, e fez mais de 30 investimentos em outras startups do setor de fintech. “Estamos em uma indústria de hipercrescimento e, dentro dela, a própria empresa está experimentando um hipercrescimento”, disse Dhivya Suryadevara, diretora financeira da Stripe, em entrevista.

Domm Holland, executivo-chefe da Fast, startup de software de efetivação de compras de e-commerce, comentou que a Stripe acelerou o progresso de sua empresa. Os clientes que usam a Stripe para aceitar pagamentos on-line podem então usar o software da Fast em seu processo de compra. “Se a Stripe não existisse hoje, teríamos primeiro de construí-la. Seria um trabalho imenso. Eles já fizeram isso.”

No ano passado, à medida que o negócio da Fast crescia na pandemia, os investidores começaram a enviar mensagens a Holland diariamente pedindo que investisse na empresa. “Tenho pessoas no LinkedIn enviando mensagens e e-mails, oferecendo: ‘Pegue US$ 5 milhões em qualquer avaliação que quiser.’ É um mundo bizarro.” Ele acabou arrecadando US$ 102 milhões para a Fast em janeiro. A Stripe foi um dos principais investidores.

Alguns avisam que a agitação não corresponde à realidade. Robert Le, analista da PitchBook, apontou para a avaliação da Affirm, que tem uma capitalização de mercado de US$ 20 bilhões, ou cerca de 40 vezes sua receita anual. Isso é significativamente maior que o valor que os investidores normalmente dedicam às empresas de serviços financeiros mais tradicionais. A American Express, por exemplo, negocia com apenas três vezes sua receita anual. “Acho que é um pouco irracional. No longo prazo, algumas delas terão de perceber isso”, afirmou.