terça-feira, maio 18

Gerdau: a ação brasileira que mais tende a ganhar com o pacote trilionário de Biden, segundo analistas

SÃO PAULO – As análises sobre os impactos do megapacote de infraestrutura de US$ 2,2 trilhões do presidente americano Joe Biden estão só começando. Afinal, um plano dessa magnitude, focado em estimular o principal motor da economia global, os Estados Unidos, traz reflexos para o mundo todo. Aqui no Brasil, entre as interpretações já feitas, uma foi constante: ações ligadas a commodities devem se beneficiar. Dentre elas, uma foi destacada como a preferida por diferentes analistas: Gerdau (GGBR4).

Entre os pilares do plano americano, estão previstos: gastos de US$ 621 bilhões em infraestrutura voltada para transporte, como pontes, estradas, transporte público, portos, aeroportos e desenvolvimento de veículos elétricos; e US$ 300 bilhões na construção e reforma de moradias populares, junto com a construção e reforma de escolas. Ou seja, materiais básicos serão necessários, e entre eles uma das grandes estrelas deve ser o aço.

Em relatório sobre o plano e seus impactos na Bolsa, o Bradesco BBI detalhou que o projeto prevê a modernização de 20 mil milhas (32 mil quilômetros) de rodovias e de dez das pontes economicamente mais significativas dos EUA, que estão em mau estado de conservação. O pacote também inclui reformas em outras 10 mil pontes e um investimento de US$ 174 bilhões só para o mercado de veículos elétricos.

“O American Iron and Steel Institute (AISI, entidade que representa o setor de mineração nos EUA) comentou que cada US$ 1 bilhão em gastos com infraestrutura requer cerca de 50 mil vergalhões de aço. […] O plano de infraestrutura proposto é um bom presságio para o crescimento futuro da demanda por aço nos Estados Unidos, já que uma grande parte do pacote deve ser direcionada a projetos intensivos em aço”, afirma o BBI.

Os analistas do banco dizem, portanto, que siderúrgicas nacionais devem ser as mais beneficiadas pelas medidas, citando especificamente a Gerdau. O BBI tem recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado, ou equivalente à compra) para as ações e o último preço-alvo definido para a empresa (do relatório do dia 13 de março) era de R$ 33 para as ações GGBR4.

O Morgan Stanley também divulgou um relatório sobre o plano, destacando que dentre os materiais usados nas obras previstas pelo megapacote o vergalhão (aço longo) é o produto de aço mais usado em aplicações de infraestrutura tradicionais, que serão o foco do novo projeto.

Dentre as ações de siderurgia brasileiras, a gaúcha Gerdau é a principal produtora de aço longo, até por essa razão é citada por analistas como a ação mais exposta ao setor de construção civil. Não à toa, os bancos mencionam a empresa como a mais bem posicionada para capturar os impactos do novo pacote americano. “A Gerdau é a que mais se beneficia dentre as ações da nossa cobertura de aço na América Latina”, diz o Morgan Stanley, que tem recomendação de compra e preço-alvo de R$ 30 para as ações.

Thomas Giuberti, sócio e economista da Golden Investimentos, diz que siderúrgicas e mineradoras como CSN (CSNA3), CSN Mineração (CMIN3), Gerdau (GGBR4), Usiminas (USIM5) e Vale (VALE3) no geral podem ser positivamente impactadas com o avanço do pacote. Mas também afirma que tem preferência pela Gerdau. “É uma empresa que tem uma exposição bem importante à infraestrutura e a parcela da sua receita proveniente dos Estados Unidos vem aumentando”.

Entre as concorrentes do setor, a Gerdau de fato é a que tem maior exposição ao mercado internacional, uma vez que possui plantas nos Estados Unidos e no Canadá, além de outras espalhadas pela América Latina.

Outras ações do setor

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha, lembra que as empresas de siderurgia e mineração já vinham apresentando uma tendência de alta com a retomada global, puxada principalmente pela China. Portanto essas empresas agora “encontram mais um motivo para se beneficiar” do cenário macroeconômico global favorável às commodities.

Ainda que o pacote tenha animado o mercado em relação à Gerdau, análises anteriores destacam também as vantagens de outras empresas do setor. Ao comparar CSN, Gerdau e Usiminas, o banco Credit Suisse, por exemplo, vinha reforçando ao longo de 2021 a preferência pelas ações da CSN. Em relatório de fevereiro, o banco suíço afirmou que, em contraste com 2020, neste ano o mercado brasileiro de aços planos deve superar o de aços longos com um crescimento de 10% dos planos, contra 7% dos longos.

“No setor, preferimos a exposição à CSN principalmente devido aos altos preços do minério de ferro, o que deve resultar em uma forte desalavancagem da empresa nos próximos trimestres. Entre Gerdau e Usiminas, preferimos Usiminas, pois vemos a demanda de aços planos superando os longos em 2021 e acreditamos que os valuations da Usiminas são mais atraentes”, afirmou o Credit em relatório de fevereiro.

Os aços planos, mais produzidos pela Usiminas, são usados na fabricação de automóveis, daí a preferência do Credit, que à época argumentava que a recuperação do setor automotiva impulsionaria as ações USIM5.

Há também no mercado forte otimismo com Vale, por causa do minério de ferro aquecido, na esteira do aumento da demanda na China e nos Estados Unidos com a retomada de ambas as economias. Mas alguns analistas preferem não comparar Vale às empresas do setor de siderurgia, já que a Vale é focada em minério.

De acordo com o provedor de dados Refinitiv (ex-Reuters), que compila as recomendações dos principais bancos e casas de análise do país, as ações da Gerdau hoje têm oito recomendações de compra, seis neutras e nenhuma recomendação de venda. O preço-alvo médio das ações é de R$ 29.69, o que representa um potencial de valorização de 1,43% sobre a cotação da tarde de hoje, de R$ 29,27 (cotação das 14h desta quinta-feira, dia 1/04).

Empresa Compra Neutra Venda Preço-alvo (potencial de valorização %*)
CSN (CSNA3) 7 2 0 R$ 38,09 (+3,28%)
Gerdau (GGBR4) 8 6 0 R$ 29.26 (+1,43%)
Usiminas (USIM5) 6 4 1 R$ 17,21 (+3,61%)
Vale (VALE3) 8 1 0 R$ 113,01 (+16,31%)

Fonte: Refinitiv / *Em relação à cotação das 14h desta sexta-feira, dia 1/04. 

Entre as quatro ações, a Gerdau tem o menor potencial de valorização e a Vale é a que mais entusiasma os analistas, com mais recomendações de compra e menos avaliações neutras ou de venda.

Vale ressaltar que os preços-alvos muitas vezes ficam desatualizados. Por outro lado, eles também refletem um ponto muito levantado por analistas do setor: apesar das boas premissas, como o minério de ferro aquecido, o pacote de infraestrutura dos EUA e o “boom” das commodities, será que essas ações já não subiram demais?

Vale lembrar que a CSN foi a empresa que mais se valorizou dentre as ações do Ibovespa em 2020, com alta de 120%. Gerdau (+25%), Usiminas (+53%) e Vale, ainda que com altas menores, também se destacaram, mesmo em um ano de forte volatilidade para a Bolsa brasileira.

No Radar, programa diário do InfoMoney com notícias do mercado, especialistas analisaram de forma detalhada os efeitos do pacote de Biden para a economia global e brasileira. No vídeo abaixo, é possível conferir a edição desta quinta-feira (1), com as visões dos economistas sobre os impactos na inflação global e nos juros e ainda quais ações, além da Gerdau e das outras siderúrgicas, podem se beneficiar em um cenário de alta de preços. Confira.

 

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