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ESG: Empresas de capital aberto respondem por 40% das emissões do planeta

Por Renato Krausz*

Power BI para Investidores

As empresas de capital aberto são responsáveis por 40% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) do planeta. A revelação está em relatório que acaba de ser divulgado pela Generation Investment Management, gestora de recursos cujo chairman e cofundador é Al Gore, o ex-vice-presidente norte-americano que ganhou o Nobel da paz em 2007 justamente por seu trabalho contra as mudanças climáticas.

O estudo mapeou as emissões de escopo um (que são diretas das operações das empresas), de escopo dois (referentes à compra de energia) e boa parte das emissões de escopo três (resultantes de toda a cadeia, incluindo fornecedores e clientes). Foram utilizadas informações de diferentes fontes, sobretudo do CDP (Carbon Disclosure Project). E foi criada uma metodologia parruda — que ocupa páginas e mais páginas do relatório — para evitar que uma mesma tonelada de carbono fosse computada duas vezes. Exemplo: uma certa quantidade de GEE emitida para a atmosfera pode fazer parte do escopo um de determinada empresa e do escopo três de outra que seja cliente dela. Aí não vale.

Detalhe: o escopo três é muito mais significativo e difícil de calcular. O CDP estima que as emissões da cadeia de abastecimento são em geral 5,5 vezes maiores do que as das operações diretas de uma empresa. Para evitar o risco da dupla contagem, o relatório da Generation pecou pelo excesso. Retirou muita coisa do saldo total para ser o mais cartesiano possível. E admitiu que a qualidade das informações atualmente disponíveis é muito ruim, mas ressalvou: “Não podemos esperar por dados perfeitos antes de cortar emissões”. No fim das contas, o percentual real das emissões das companhias listadas ficou em 40%, mas tudo leva a crer que é maior.

E o que isso tudo significa? Muitas coisas, e coisas diferentes, conforme a ótica de análise. As empresas de capital aberto obviamente são minoria absoluta no universo das organizações mundiais, o que as torna grandes responsáveis pelas agruras do aquecimento global, mas também artífices indispensáveis da busca por soluções que mitiguem, ou melhor, estanquem o problema.

Por outro lado, a “culpa” das demais empresas também é significativa, incluindo aí as pequenas e médias. Um esclarecimento importante: toda (ou quase toda) empresa listada é grande, mas nem toda empresa grande é listada. Existem companhias gigantes – e muitas delas intensivas em carbono – que não estão no cálculo da Generation por serem de capital fechado ou estatais. Há duas exceções que foram consideradas no estudo pela relevância que possuem: a Saudi Aramco, da Arábia Saudita, e a Gazprom, da Rússia, ambas sob controle estatal.

O relatório traz uma informação da ONG Rainforest Action Network, segundo a qual os 60 maiores bancos do setor privado forneceram 3,8 trilhões de dólares em financiamento para combustíveis fósseis nos últimos cinco anos. Enquanto a grande maioria desses bancos é de capital aberto, boa parte do financiamento foi para empresas não listadas, incluindo produtores de carvão.

Voltemos às empresas listadas. Como se viu, sua responsabilidade é enorme. Mas há um alento: elas ao menos têm muito mais condições de virar o jogo. São mais ágeis, mais abertas à inovação e suscetíveis à influência externa. E também mais impelidas a prestar contas à sociedade.

E os investidores — da Generation ou de qualquer outra gestora — têm um considerável poder transformador por meio das escolhas de alocação de capital e das oportunidades de engajamento com os conselhos de administração das empresas.

Al Gore e seus sócios já deixaram claro que pretendem votar contra certas administrações nas companhias e até mesmo levar o dinheiro de seus clientes para outros lugares. Estamos na era da marcação cerrada do ESG. E está certíssimo! Eles afirmam no relatório: “Um pequeno número de gestores de investimento que aparecem regularmente entre os dez principais acionistas de empresas listadas têm a responsabilidade imediata de agir”.

Com a proximidade da COP26 e com a dimensão das catástrofes climáticas que se avizinham, relatórios como este são de extrema importância não só para dar vazão ao ímpeto dos investidores que desejam mexer nos ponteiros do aquecimento global, como também para exigir que as empresas priorizem as ações necessárias e os reguladores promulguem regras que deixem o setor produtivo mais alinhado com o objetivo de carbono zero. Manda mais, Al Gore!

*Renato Krausz é sócio-diretor da Loures Comunicação

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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