quinta-feira, fevereiro 25

Crítica | Scarface é uma caminhada rumo à morte apoteótica

 

O autor Jay Robert Nash, especialista em crime com mais de 70 livros publicados, relatou que os gângsteres dos EUA aprenderam a falar e a se comportar estudando os primeiros filmes policiais de Hollywood. Não seria exagero, a partir dessa afirmação, dizer que Scarface: A Vergonha de uma Nação (de Howard Hanks, 1932) é um exemplo clássico que permite até fazer um checklist em cada ponto fundamental para filmes com sua temática: guerras sanguinárias entre gangues, a vida de luxo dos chefes da máfia e o anti-herói.

Ao mesmo tempo, o filme de Hanks é uma apoteótica propaganda contra a máfia — o crime organizado estava no auge durante o final dos anos 1920 e a década seguinte —, com Tony Camonte (Paul Muni) sendo construído como alguém influenciado pelo meio, caindo na vida do crime por não haver oportunidades de conhecer outro caminho. O final amargo e sem esperança, com uma ironia dura, é um marco: Tony, solitário, e rumando para a morte, passa por um anúncio onde é possível ler The world is yours (“o mundo é seu”, em tradução direta), o mesmo anúncio que o fez sorrir tantas vezes durante boa parte dos curtos 93 minutos de duração do filme.

 


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Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Gloriosamente perigoso

Toda a sanguinolência do filme em preto e branco da década de 1930 é elevada quase meio século depois pelas mãos de Brian De Palma. O remake (ou perto disso), batizado somente de Scarface, talvez seja o filme em que seu diretor exala o que de mais potente tem em sua linguagem, em sua assinatura: um exagero proposital que evidencia elementos da forma enquanto a história em si é relegada a um segundo plano.

Não que a narrativa seja algo menor. São quase três horas de filme com diálogos expressivos e situações que dão liberdade à visão de De Palma. O texto, escrito por Oliver Stone (que vinha da adaptação de Conan, o Bárbaro) dá asas a toda agressividade extravagante do diretor, com frases de efeito, chacinas épicas e uma condução que evoca a performance exagerada do elenco — especialmente do protagonista interpretado por Al Pacino.

Por essa perspectiva, Tony Montana (Pacino) tem uma crescente praticamente apoteótica. Ele é um sujeito que, acima de qualquer coisa, existe para ser ele mesmo de maneira triunfante. Pacino, shakespeariano, é a escolha ideal para um personagem gloriosamente dramático. Isso, claro, com toda a preparação construindo-o em uma evolução progressiva.

Pode ser interessante, nesse sentido, compreendê-lo desde o ex-presidiário descartável que já se esforçava para ter a personalidade reconhecida até o homem fora de si e megalomaníaco. É um grande arco dentro do filme, mas tudo está presente desde sempre. Se, inicialmente sem recursos e armas, Tony já consegue enganar homens mais poderosos por meio de blefes, parece não haver motivação suficiente para que ele seja confrontado. Pacino exala uma aura psicologicamente violenta que, ativamente, não permite que duvidem de suas palavras e atitudes. Subestimar sua personagem, desde a abertura, já é iminentemente perigoso.

Ecos de Shakespeare

Acontece que em relação ao filme de 1932, Scarface pode ser visto como um remake, mas também pode ser dito que ele não o é — ao menos não de maneira convencional. Aqui, Stone e De Palma transportam a ascensão e a queda de um homem para uma exposição com elementos e subtextos diferentes. Se a queda do primeiro acontece devido à prostituição (produto do seu trabalho), a do segundo se dá por meio da cocaína (também produto seu).

Por outro lado — e voltando — Tony Camonte, inspirado diretamente em Al Capone, traz à tona valores de uma era de urgência do crime organizado, do combate a este. Enquanto isso, Tony Montana é um personagem que expõe, mesmo que seja com ecos do mais influente dramaturgo do mundo (Shakespeare no caso), decisões de sua época, como a de Fidel Castro em permitir a imigração de cubanos e o subsequente esvaziamento de suas prisões.

A transgressão do físico

Scarface é De Palma em excelência. Minimalismos e sutilezas não estão no repertório, mas, simultaneamente, suas escolhas influenciam na nossa percepção do todo de seu filme de um jeito cirúrgico. Pode ficar óbvia a existência de uma mente ambiciosa por trás de cada cena do filme e isso acaba rimando com o próprio protagonista. É um estilo que afasta qualquer sensação de indiferença. Cada elemento do cinema está em alto-relevo: atuações, planos, ângulos… cada escolha estética é uma pincelada gloriosa de um diretor conscientemente entregue ao exagero.

Esse mesmo exagero, aliás, é contraposto quando tudo ao redor de Tony começa a se fechar. Antes, o mundo era imensidão, com De Palma o revelando em planos abertos. Aos poucos, diante do cercamento, esses planos se fecham, pouco a pouco, como se acumulassem pólvora para uma explosão final. É a direção que, engenhosamente, tem sutileza apesar de grandeza; que é enorme na condução dos detalhes; e que, finalmente, ao chegar no ápice, explode em força, exagero, frase de efeito e violência.

 

Say hello to my little friend!, em outra medida, pode ser De Palma constatando, frontalmente, a corpulência de Scarface. De repente, é o Nirvana de Tony, cafungado de cocaína, finalmente superando todo o apego aos sentidos, ao material, à ignorância e à própria existência. Porque, para um homem sem qualquer elevação espiritual — o que é claramente exposto durante as quase três horas —, a paz só poderia chegar pela transgressão do físico, no caso, pela morte.

Scarface pode ser assistido no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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