sexta-feira, fevereiro 19

Crítica | Ponto Vermelho transforma cisne em patinho feio

 

Às vezes, pode ser um tanto quanto incompreensível como algo tão interessante acaba se transformando em um bolo abatumado. É um processo estranho, como se, subitamente, tudo o que foi construído desmoronasse. Ponto Vermelho, nesse sentido, pode ser um exemplo muito consistente dessa abordagem de conto de fadas reverso, porque começa cisne e termina patinho feio.

O diretor Alain Darborg (de Jönssonligan: Den perfekta stöten — filme de 2015), que coescreveu o roteiro junto ao estreante Per Dickson, inclusive, consegue estabelecer uma atmosfera inicial que pode, de repente, lembrar alguns bons momentos da série Fargo. Há um conceito claro no desenvolvimento dos dois primeiros atos do filme: a ameaça invisível que vem daqueles que já foram vistos.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!


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Caçando como orcas

Darborg sabe muito bem como construir a sensação terror. Já no início, ele parte de uma situação aparentemente inocente — com um pedido de casamento diferente — para, em um corte, revelar o desmoronamento da relação. É, na prática, como uma preparação, porque essa involução do casamento entre Nadja (Nanna Blondell) e David (Anastasios Soulis) ocorre sem que seja necessário ser mostrada: quando se vê, eles já passaram do pedido de casamento para a convivência complicada.

A convivência complicada. (Imagem: Reprodução/Netflix)

É, portanto, a reconciliação que entra em jogo, além do desdobramento dela. Acontece que, até esse ponto, Darborg conduz um trabalho bem estruturado. Cada cena encaminha para a próxima com muita naturalidade e, aos poucos, o clima sombrio começa a ganhar corpo. É como se, emocionalmente, toda a parte que foi excluída entre o pedido de casamento e a convivência difícil começasse a ser exibida, só que, agora, é um agente externo que começa a destruir a viagem romântica do casal — é o que parece ao menos.

Essa evolução da inimizade que Nadja e David desenvolvem por uma dupla de desconhecidos tem uma concepção digna de um bom thriller de perseguição. Os momentos sob a luz da aurora boreal são ameaçadores, flertando com a ideia de seriais killers que aterrorizam as vítimas antes de matá-las; ou como orcas, que cansam focas indefesas antes de partirem para a morte de fato.

O diretor usa um repertório de planos e ângulos que tem força para transportar os espectadores, de algum modo, para aquela situação. Além dos planos gerais, que parecem arremessar os protagonistas na vastidão solitária do acampamento na neve, Darborg passeia com muita competência por câmeras subjetivas (que simulam o olhar dos personagens) e até por breves momentos de uma simulação de found footage, como se houvesse uma câmera pendurada no pescoço da dupla aterrorizada.

A vastidão solitária dos planos gerais. (Imagem: Reprodução/Netflix)
Breves momentos de uma simulação de found footage. (Imagem: Reprodução/Netflix).

Abrindo as asas até…

Todo o terror é, ainda, simbolicamente erguido sob o viés do racismo. Algo que, provavelmente, vem do texto do próprio diretor e de Dickson. Por outro lado, é no plot twist final que Ponto Vermelho sofre uma queda vertiginosa. Toda a tensão erguida e a conexão entre os personagens e seus perseguidores tornam-se simbologias de uma vingança muito mais séria. A fundamentação de um terror/suspense/drama com veias de entretenimento puro e toques de comentários sociais com uma direção habilidosa parece se quebrar pelo chão.

Não que essa mutação promovida pelo roteiro seja gratuita. Tudo parece se encaixar. Mas o próprio Darborg não parece muito entusiasmado com seu terceiro ato e, nessa seriedade pós-morte de uma criança, Ponto Vermelho desconstrói-se da pior forma possível, estabelecendo um antagonista com motivações muito diretas para que toda a perseguição de orca anterior tenha validade.

Quando tudo se quebra pelo chão… (Imagem: Reprodução/Netflix)

No final das contas, o filme começa cisne e vai abrindo as asas em meio ao nevoeiro, somando até a gráfica exposição da cabeça de um cachorro — que pode lembrar a clássica cena da cabeça do cavalo em O Poderoso Chefão (de Francis Ford Coppola, 1972) —, mas a virada aqui é mesmo a transformação em patinho feio e, junto, a sensação de decepção fundamentada pelos ótimos dois primeiros atos. Algo como um bom episódio da série Fargo, só que finalizado por uma foca.

Ponto Vermelho está disponível na Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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