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Crítica | O Estripador conta história de serial killer com foco na misoginia

Em dezembro, a Netflix incluiu em seu catálogo mais uma produção documental que conta a história de crimes reais e a caçada pelo assassino. Desta vez, a plataforma de streaming nos apresenta ao assassino em série que ficou conhecido na Inglaterra como “o estripador de Yorkshire”, que tinha como foco matar mulheres, definido inicialmente como um assassino de prostitutas.

A série documental explica como foi a jornada para chegar até o assassino, que atuou por cinco anos e fez 13 vítimas. The Ripper, ou O Estripador, conta uma história que teve um desfecho um mês antes da estreia da produção, coincidentemente.

Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica contém spoilers de O Estripador!


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A série documental O Estripador é uma produção que reúne imagens reais da investigação e depoimentos de pessoas envolvidas no caso, sejam policiais, jornalistas ou familiares das vítimas, nos apresentando a um sistema falho de busca por um criminoso baseado em achismos. A primeira grande falha apontada na investigação é vista apenas na segunda metade da trama, quando policiais descartam vítimas sobreviventes e relacionam os assassinatos apenas às garotas de programa.

A grande falha, no entanto, está na presunção inicial de que a primeira vítima era uma prostituta, com os policiais julgando as mulheres com base em seus estilos de vida, resultados das dificuldades enfrentadas na luta pela sobrevivência. Esta vítima, em específico, era uma mãe solteira com quatro filhos e que muitas vezes precisava deixar todos sozinhos em casa, o que fez com que a prostituição fosse imediatamente ligada a isso.

Em capas de jornal e revistas, as vítimas tinham suas vidas expostas e julgadas, além de contar com fotos grandes e que, de forma subliminar, expunham um suposto merecimento do crime, isso em uma época em que as mulheres começariam a aproveitar mais os seus direitos após anos de restrições misóginas, mesmo que o ódio nunca tenha ido embora

Imagem: Divulgação/Netflix

Um dos momentos de maior revolta apresentado no documentário foi com a ordem de que as mulheres passassem por um toque de recolher, sendo proibidas de circular livremente para não serem vítimas do assassino. Isso era imposto como forma de prevenção, mas escancarou a opressão sobre a liberdade da mulher, seus costumes, hábitos e decisões, fazendo com que centenas de mulheres fossem às ruas em forma de protesto. Em nenhum momento tais leis foram impostas aos homens, que poderiam continuar circulando livremente, mesmo sabendo que o criminoso era um deles.

A primeira metade da série não traz informações tão relevantes para a resolução do caso, sendo mais como uma apresentação ao que estava por vir e à pessoa cruel que estaríamos prestes a conhecer. Os detalhes acabam sendo confusos, sendo difícil chegar a memorizar quem foram as vítimas e relacioná-las aos seus nomes. Muitos depoimentos são superficiais e a forma como os acontecimentos são apresentados também não provoca aquela ânsia de continuar assistindo e tentar desvendar o caso. Apesar disso, os dois últimos episódios acabam compensando essa espera, principalmente quando a trama reproduz as cartas e áudios enviados aos policiais.

Imagem: Divulgação/Netflix

O estripador de Yorkshire, diferente de muitos outros serial killers, fez “poucas” vítimas em um período de cinco anos, entre 1975 a 1980, mas, apesar das falhas policiais, nunca ele deixou de representar uma ameaça ou que as mortes dessas mulheres não precisassem de justiça. O erro dos policiais foi tamanho que eles chegaram a interrogar o verdadeiro culpado nove vezes, e mesmo assim ele foi descartado todas as vezes.

Peter William Sutcliffe foi pego e julgado em 1991, enfrentando diversas sentenças de prisão perpétua. Inicialmente, os responsáveis por sua prisão acreditavam serem heróis, mas a prisão aconteceu por acaso e suas falhas acabaram expostas e suas carreiras nunca mais foram as mesmas, alguns sendo rebaixados de cargo ou ainda optando pela aposentadoria.

A série documental não se aproxima de outras em relação à qualidade da forma como o caso é apresentado e explicado, mas ao menos deixa claro que muitos serial killers têm seu modus operandi vinculados à misoginia e ao fato de serem socializados como homens e seu sentimento de superioridade, de revolta às mulheres que são livres para serem o que são. No dia 13 de novembro de 2020, Peter William Sutcliffe morreu em decorrência da COVID-19.

O Estripador está disponível na Netflix em quatro episódios.

Leia a matéria no Canaltech.

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