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Crítica | O Céu da Meia-Noite e o mistério do grandioso que se tornou clichê

 

Nem sempre é necessário considerar os currículos de quem fez o filme, sendo muitas vezes bom analisar uma obra por ela mesma e não por aquilo que se espera do artista. Tentei pensar O Céu da Meia-Noite pelas duas perspectivas e cada uma delas levanta seus próprios pontos positivos e negativos. É difícil ver um filme estrelado, produzido e dirigido por George Clooney e não esperar algum conceito bastante inteligente e, tendo isso em mente ou não, a produção da Netflix segue sendo um bom filme com um final no mínimo decepcionante.

Acredito que, aqui, o problema não seja exatamente a lentidão do filme, que poderia torná-lo cult. Tampouco é qualidade técnica, que está entre suficiente e excelente, dependendo do departamento para o qual olharmos. O Céu da Meia-Noite parece tentar dialogar com públicos diferentes e acaba com a sensação de que não dialoga com nenhum: nem bom o suficiente para surpreender os cinéfilos, nem fácil e intrigante o suficiente para tornar-se mais popular. Assim, ele fica em uma espécie de limbo em que agrada pela mensagem e por alguns outros elementos, mas não tem ares de obra memorável. Assim como Perdido em Marte, deve ter conquistado alguns fãs. E não muito mais do que isso.

Imagem: Reprodução/Netflix

Para um filme que tinha potencial para Oscar, O Céu da Meia-Noite parece bastante aquém, assemelhando-se muito mais ao que há de mais genérico no catálogo de sci-fis da Netflix. A temática importantíssima do filme manda um recado assustador para os espectadores, mas se perde no drama que poderia dar origem a uma revelação a la Interestelar e se torna apenas um clichê melodramático, ainda que possa soar como uma revelação sincera para muitos espectadores.


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Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Mensagem

Não há nada de inaceitável no óbvio e um clichezinho aqui ou ali não fazem mal a ninguém. No entanto, George Clooney já esteve em obras de ficção científica como Solaris, de Steven Soderbergh, e Gravidade, de Alfonso Cuarón, o que indica que o ator/produtor/diretor tem conhecimento de sobra sobre o assunto para criar algo muito mais impactante.

Particularmente, acho bastante injusto cobrar de qualquer obra o uso de certos recursos, mas é de suma importância que o impacto seja grande o suficiente para causar mudanças reais, sobretudo em um filme que tenta alertar a população real da Terra sobre um problema que em breve pode se tornar irreversível e mortal: nosso planeta envia sinais de que não está bem (para muitas formas de vida) há bastante tempo e um apocalipse em 2049 não é bem um exagero. Se filmes muito mais impactantes não conseguiram mudar nossa realidade, por que deveria O Céu da Meia-Noite?

Imagem: Reprodução/Netflix

A resposta correta é: não deveria. Como disse, nenhum artista é obrigado a nada com sua arte. Mas se a Terra e a preocupação com o outro são mensagens óbvias do filme, é triste que isso seja entregue como um presente muito bem embrulhado em uma caixa grande que, quando abrimos, guarda apenas um bombom dentro. Um bombom gostoso, bem feito, mas apenas um bombom, o prazer de algumas mordidas e fim.

Gostaria de acreditar no oposto, no impacto real de O Céu da Meia-Noite, mas seria inocência demais esperar isso se nem mesmo filmes como A Chegada conseguiram nos acordar para aquilo que até Ed Wood tentou nos alertar: não estamos cuidando bem uns dos outros e isso, provavelmente, é o que nos impediria de destruir a Terra. Os elos, o amor, a preocupação e a responsabilidade com o outro, conexões evitadas pelo próprio protagonista nas memórias que vimos em flashbacks, e recuperada por ele nos momentos finais, na melodramática redenção de Augustine (Clooney).

Científico-poético

Poeticamente, O Céu da Meia-Noite é razoavelmente forte. A atuação de George Clooney é bastante boa, ainda que passe longe de algumas das melhores da sua carreira, e consegue transpassar os sentimentos de um personagem tão intimamente ligado ao racional. É impressionante, inclusive, como a trilha sonora (pouco marcante) consegue dar ao filme ares melodramáticos mesmo quando tudo o que vemos em cena é um grupo de cientistas que deixam os sentimentos fluírem apenas no limite do necessário, sem atrapalhar as decisões racionais.

Imagem: Reprodução/Netflix

O sentimentalismo é, provavelmente, o ponto mais confuso de O Céu da Meia-Noite. Sentimentos são, claro, parte essencial dos seres humanos e eles jamais devem ser ignorados, mas é uma pena o modo como o roteiro transforma o essencial para todos os humanos em um momento de sutil glorificação de Augustine e dos demais personagens. Por outro lado, o filme que parecia ser sobre o grande futuro da humanidade entre as estrelas foi reduzido (não necessariamente no sentido ruim da palavra) ao mais básico (e mais complexo) da nossa existência: sobreviver para viver com quem amamos.

Nesse sentido, O Céu da Meia-Noite torna-se um pouco mais profundo e, de fato, a Terra fica em segundo plano para que tomemos contato com a ajuda. O filme todo é sobre pessoas se ajudando: os últimos sobreviventes sendo levados para outro local, Augustine tentando sobreviver para fazer contato com alguma nave e os tripulantes da missão tentando concluir o que lhes foi designado, sem nenhum dos clichês clássicos de ficções científicas em que a equipe tragicamente se divide com uma belíssima discussão digna de novela das oito. Não há isso aqui e é no extremo da racionalidade que a compreensão, o respeito, a empatia e o amor acabam brotando, ainda que muito sutilmente.

Imagem: Reprodução/Netflix

Se entendemos o apocalipse da Terra apenas como background para a história de O Céu da Meia-Noite, o filme torna-se apenas um simples drama espacial. Se levarmos a destruição do planeta em conta, notamos que isto foi bastante mal explorado pelo roteiro e o impacto do apocalipse acaba reduzido. Gostaria de ter saído da sessão com uma sensação enorme de culpa coletiva e com vontade de lutar pela nossa sobrevivência, mas tudo o que fiquei pensando foi se a cena final estava realmente tentando repassar, mais uma vez, a desgastada e retrógrada imagem religiosa de um novo casal que povoará tudo, Adão e Eva orbitando Júpiter.

Apesar de tudo, ainda me pergunto: será que não entendi o filme? Será que há algo de muito sagaz escondido ali?

O Céu da Meia-Noite está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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