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Crítica | Julie and the Phantoms entretém e traz diversidade ao público jovem

 

Não é de hoje que os estúdios estão apostando na memória afetiva do público para produzir séries e filmes. Nos últimos anos, o setor do entretenimento foi tomado por uma onda nostálgica que consiste em pegar histórias que fizeram sucesso há 10, 20 ou mais anos e repaginá-las passando por outro processo criativo e até trazendo as situações, personagens e universos para um contexto mais atual, com diversidade no elenco, pautas sociais na trama e um enredo que o público possa se identificar.

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A lista de produções que entraram nessa roda é enorme e conta com nomes fortes, como Gilmore Girls, Cobra Kai, Fuller House e High School Musical: The Musical: The Series. Essa última foi uma das promessas do lançamento global do Disney+ justamente por pegar uma franquia de muito sucesso da geração anterior e dar a ela um novo começo, com personagens novos que, mesmo ambientada no cenário utilizado para os filmes, consegue incluir representatividade e discutir assuntos atuais sem perder a essência.

Em julho deste ano, a Netflix anunciou que faria um remake de Julie e os Fantasmas, que embora seja um programa nacional, fez tanto sucesso quanto qualquer outra produção da cultura pop transmitida pela televisão aberta. A série teve apenas uma temporada, produzida pela Band e distribuída pela Nickelodeon em 2011, trazendo para frente das câmeras nomes que costumavam frequentar palcos de teatro: Mariana Lessa como Julie e Bruno Sigrist, Marcelo Ferrari e Fábio Rabello como os fantasmas Daniel, Martim e Félix.


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A banda Julie and the Phantoms (Imagem: Divulgação / Netflix)

O projeto de fazer uma releitura da série brasileira foi entregue a ninguém menos que Kenny Ortega, principal referência de produções destinadas a crianças e adolescentes e nome por trás de franquias de muito sucesso da Disney, como High School Musical, The Cheetah Girls e Descendentes. Por estar envolvido no projeto, a expectativa era de que a série viesse com muita música, dança e, é claro, problemas e situações vividas por jovens com a idade do público.

Julie and the Phantoms cumpre muito bem o papel de entregar exatamente aquilo que é esperado, e até surpreende em outros pontos. A protagonista Madison Reyes vive seu primeiro projeto profissional no papel principal de Julie, uma adolescente que perdeu a mãe e, por conta disso, desenvolve um bloqueio criativo que a impede de fazer qualquer coisa relacionada à música. A reação do público às cenas de Reyes é unânime: a jovem, de apenas 16 anos, é tão talentosa que é quase impossível acreditar que a série da Netflix seja sua primeira experiência em frente às câmeras.

Em uma entrevista à Folha de S. Paulo, Ortega revelou que uma de suas exigências eram trazer representatividade à protagonista da série e, para isso, foram enviadas mil cartas a diferentes academias de arte nos Estados Unidos e Canadá até encontrarem Madison Reyes, adolescente porto-riquenha que na época tinha 14 anos e estudava numa escola na Pensilvânia.

“Isso simplesmente pareceu natural para Julie”, ele declarou ao jornal. “Eu não faria se não fosse. Eu não vou fazer nada que não me dê a oportunidade de ter uma inclusividade rica e uma diversidade étnica no meu trabalho.”

Da esquerda para a direita: Flynn (Jadah Marie), Julie (Madison Reyes), Luke (Charlie Gillispie), Alex (Owen Patrick) e Reggie (Jeremy Shada) (Imagem: Divulgação / Netflix)

A história acompanha os fantasmas Luke (Charlie Gillispie), Alex (Owen Patrick) e Reggie (Jeremy Shada), que são despertados no estúdio do fundo da casa de Julie 25 anos após morrerem intoxicados por um cachorro-quente na noite em que realizariam o maior sonho de suas vidas: tocar na casa de shows mais disputada de Los Angeles. Ao conhecerem o talento musical da protagonista, a convidam para ser vocalista de sua banda, uma vez que percebem que conseguem ser vistos por pessoas vivas quando tocam instrumentos e, para sustentar a mentira, a vocalista diz que os meninos são apenas hologramas.

A partir daí, a receita para o clichê adolescente é seguida fielmente: os personagens não demoram para se tornarem amigos e ajudarem a protagonista a superar seu trauma. Também há a inserção de um triângulo amoroso típico de colegial, muitas situações que valorizam a amizade, família e a honestidade e por aí vai.

É nítido que quase nada da trama original de Julie e os Fantasmas foi aproveitado, porém a história consegue entreter com novidades e adições ao enredo que o público não sabia que precisava até então, o que limita a nostalgia dos fãs apenas ao primeiro capítulo, mas isso não é necessariamente um problema.

Embora Julie and the Phantoms siga uma história previsível para agradar o público-alvo, há uma tentativa clara de sair da zona de conforto e, obviamente, a marca de Kenny Ortega na produção com muitas coreografias e canções, que, diferente de High School Musical e Descendentes, limita-se aos shows da banda que dá nome à série.

Booboo Stewart junta-se novamente a Kenny Ortega e participa da série como Willie, um fantasma que acaba tornando-se interesse amoroso de Alex (Imagem: Divulgação / Netflix)

Vale destacar também que há elementos na série incomuns para quem está acostumado a assistir filmes comandados por Kenny Ortega: o diretor ainda segue limitando demonstrações de afeto a abraços e mãos dadas, mas seguindo a linha de incluir representatividade no show, não há do que reclamar. Logo no início, é revelado que Alex, o baterista da banda é abertamente homossexual e não demora muito para que um interesse amoroso surja na história. Booboo Stewart (que já havia trabalhado com Ortega em Descendentes, interpretando Jay, filho de Jafar) dá vida a Willie, fantasma que assim como os outros três está preso na Terra, porém com complicações maiores.

Há também a presença de diferentes tipos de antagonistas na história. O principal deles é Caleb (Cheyenne Jackson), um fantasma já experiente com a convivência entre os vivos que traz todas as características “Disney” de um vilão: a risada maligna, o discurso misterioso e planos mirabolantes. Dono de uma boate que serve como entretenimento para os corpóreos (nome que os mortos dão aos vivos), o poderoso fantasma deseja capturar Luke, Alex e Reggie e prender suas almas para toda a eternidade.

Por outro lado, temos a presença de Carrie (Savannah Lee May), vocalista de um grupo formado apenas por meninas que tem como objetivo ser uma estrela da música. A ascensão de Julie e sua banda a incomoda a partir do momento em que vê sua fama no colegial perder espaço, mas como todo bom clichê adolescente, seu coração amolece ao final da história ao finalmente notar o talento da protagonista no episódio final.

Carrie (Savannah Lee May) e o grupo Dirty Candy (Imagem: Divulgação / Netflix)

Julie and the Phantoms não é uma série que pode ser altamente levada a sério. Feita para o um público específico, a história não se preocupa em responder certas dúvidas que no mundo real seriam frequentes, como: se os fantasmas demoram tanto tempo para aprender a segurar objetos, como eles conseguem trocar de roupa todos os dias e sentar nos lugares? Ninguém nunca sequer questionou o fato de os “hologramas” serem muito bem feitos a ponto de enganar todo o público? Entre outras perguntas.

A produção possui um humor carismático e uma história que entretém em poucos episódios, facilmente de serem maratonados. Os minutos finais do último capítulo deixam diversas pontas soltas e um gancho que claramente implora para a Netflix renovar a série para uma nova temporada, que até então não foi confirmada pela plataforma.

Julie and the Phantoms está disponível no catálogo da Netflix.

Leia a matéria no Canaltech.

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