terça-feira, abril 6

Crítica | Alma de Cowboy frustra por ser apenas uma espécie de déjà-vu

 

Alguns filmes conseguem criar uma aura bem interessante, como um campo de força contra o não-gostar. Seja pela história contada — geralmente edificante —, seja pelo elenco carismático e competente, seja pela sua ligação com a realidade, essas obras conseguem construir uma relação muito próxima com o espectador. Alma de Cowboy segue, em resumo, esse caminho, marcando, exatamente, esses três pontos do checklist.

O filme do estreante em longas-metragens Ricky Staub, portanto, é agradável em seu conjunto, com suas quase duas horas de duração passando relativamente de maneira rápida e indolor. Existem alguns momentos que são suficientemente genuínos, como os cavaleiros vistos através da janela de um ônibus por uma criança e sua mãe. Outros, porém, podem dar uma sensação de déjà-vu e o conjunto da obra parecer uma repetição de tantos outros filmes sobre amadurecimento, paternidade e amizade.

Através da janela… (Imagem: Reprodução/Netflix)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!


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Dinâmica ingênua

Durante Alma de Cowboy, Staub demonstra que sua direção de elenco é refinada. Há uma química constante na relação parental entre Cole (Caleb McLaughlin) e Harp (Idris Elba) e na conexão fraternal entre Cole e Smush (Jharrel Jerome). Todos parecem estar sempre na mesma afinação, construindo um conjunto muito sólido. As transformações de McLaughlin e Jerome, inclusive, são incontestáveis — especialmente para quem os acompanhou, respectivamente, nas séries Stranger Things e Olhos que Condenam.

Há, ainda, um elenco de apoio composto por membros reais da comunidade retratada e, sem exceção, todos têm um desempenho em sintonia — até mesmo para com os veteranos Elba e Lorraine Toussaint (a Nessie). Jamil Prattis (que interpreta o cadeirante Paris), por exemplo, pode lembrar o indicado ao Oscar LaKeith Stanfield (de Judas e o Messias Negro) em alguns momentos.

Jamil Prattis em cena. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Contudo, acontece que toda a força das atuações pode não ser suficiente para segurar um roteiro que não dá material suficiente para uma dinâmica mais contundente. O texto do próprio Staub e do também estreante Dan Walser é recheado de diálogos fracos em momentos que a história precisa de porquês para se manter relevante e de frases prontas que quase soam piegas demais.

Nesse contexto, “coisas difíceis vêm antes de coisas boas” pode ser um mantra óbvio demais — e socialmente complicado — para histórias de amadurecimento. Mesmo assim, talvez funcione no universo de Alma de Cowboy e, junto a algo como cavalos não são os únicos que precisam ser domados aqui, fundamenta a estrutura geral de um filme que chega a ser ingênuo.

O silêncio e a frustração 

Toda a ingenuidade de Concrete Cowboy (título original), por sua vez, parece transbordar nos planejamentos e nos olhos de Smush. A cena em que ele e Cole vão à festa de Jalen (Michael Ta’bom) talvez seja o ponto de tensão mais relevante do filme. Apesar da apreensão, que é fundamentada muito mais pela presença forte da atuação de Ta’bom do que por qualquer escolha da direção, a personagem de Jerome permanece ali, divertindo-se, achando-se mafioso (como ele mesmo menciona os “filmes de máfia”), enquanto cava sua própria cova.

Mas Staub não quer (ou parece não querer) adentrar na seriedade desse mundo de forma permanente. Seu foco é Cole e, portanto, em um dos raros momentos em que sua escolha de plano diz mais do que tudo, o diretor expõe os amigos a uma completa pequenez, como se o mundo pudesse os engolir. Isso acontece, exatamente, antes de Smush discursar sobre o silêncio, sobre estar em busca do silêncio durante toda a vida. Mas, na sequência, o silêncio que o mundo lhe preparou acaba por ser outro muito mais direto, muito mais literal.

A completa pequenez. (Imagem: Reprodução/Netflix)
Discursando sobre silêncio. (Imagem: Reprodução/Netflix)

De todo modo, toda a discussão social possível de Alma de Cowboy é minimizada por um roteiro despreocupado e por uma direção igualmente relaxada. Por essa perspectiva, o filme é, felizmente, concebido envolto pela grande aura protetora do não-gostar. E, depois de o elenco segurar as pontas durante as quase duas horas de duração em meio a raros momentos esteticamente instigantes de verdade — como Cole domando o cavalo Boo —, a realidade dá as caras nos créditos finais.

O pior é que as declarações reais podem ser tão inconclusivas ou insossas quanto o filme inteiro. Fica a sensação de que, para o funcionamento do conjunto, é necessário o conjunto de fato. Sendo assim, Alma de Cowboy é, sem dúvida, um filme que tem uma energia de comunidade e de relacionamento entre seus personagens muito acima da média, mas se torna frustrante por se conformar em ser, somente, um déjà-vu.

Alma de Cowboy está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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