domingo, fevereiro 28

Congresso e Executivo alinhados não basta, diz gestor da Grimper Capital

Embora a aliança entre o governo e os presidentes da Câmara e do Senado tenha sido comemorada pelo mercado, Sylvio Castro, sócio-fundador e gestor da Grimper Capital, prefere adotar a cautela até que a agenda de reformas ande “de fato”. “É isso que vamos testar nos próximos meses”, disse em entrevista à EXAME Invest.

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Com quatro anos de trabalho no Goldman Sachs, sete anos de Credit Suisse e mais sete de ABN Amro, Castro é um dos gestores mais experientes do mercado com a visão do investidor estrangeiro. Ele vê a aceleração dos preços como parte de um movimento global que deve beneficiar, especialmente, commodities e bolsas emergentes.

Mas, com o lançamento de seus dois primeiros fundos previsto para a virada deste mês, Castro conta que pretende ter uma posição reduzida em ações brasileiras — ao menos por enquanto.

O Brasil precisa mostrar para o investidor global que somos oportunidade de diversificação, com acesso a empresas de altíssima qualidade. Não estou pessimista para a bolsa no Brasil. Só acho que se fizéssemos nossa parte poderíamos estar andando muito mais.”

Além da atenção com a situação fiscal conturbada, Castro avalia que a alta de preços no Brasil deve elevar a inflação para além dos 6% ao ano. “Deve haver muita preocupação com a inflação no meio do ano.” Para controlá-la, segundo ele, o Banco Central deve elevar a taxa Selic de forma gradual, passando para 3,5% até o fim do ano e chegando a 5% ou 6% no médio prazo. A taxa está atualmente em 2% ao ano.

Mas, mesmo com a eventual aprovação de reformas e a alta de juros, Castro não enxerga uma forte queda do dólar no país e dá preferência à bolsa brasileira nesse cenário. “[Caso isso ocorra] é claro que o real deve testar níveis mais altos, mas pensando com cabeça de hedge fund, é a posição que menos me anima de usar como um vetor positivo”, diz.

Confira a entrevista de Sylvio Castro à EXAME Invest.

Quais serão as estratégias dos fundos da Grimper Capital?

Serão [lançados] dois fundos. O Meru, que é de ações long bias, pode ficar comprado e vendido, mas sempre mais comprado que vendido. A ideia é investir com foco em empresas brasileiras, mas também fazer long bias no mercado internacional. 

O outro será o Blanc, multimercados, com visão macro dividido em quatro subestratégias: ações, crédito privado no exterior e juros e moedas no Brasil e um backbook que faz a parte de proteções em commodities que acelera alguma das três subestratégias quando estivermos muito convictos. A ideia do multimercados é trabalhar com volatilidade de 1% o tempo todo.

A Grimper está abrindo um fundo de ações com as bolsas próximas das máximas históricas. Vocês ainda estão otimistas com o cenário?

Nossa bolsa sempre teve uma correlação muito alta com os mercados internacionais. E tem uma combinação muito rara. O tamanho do estímulo fiscal que tivemos só é comparado ao do pós-guerra e o estímulo monetário nos Estados é praticamente equivalente ao que tivemos entre o começo da crise subprime até 2018. Foram 10 anos em 10 meses. Quando se soma isso à percepção de que a vacina traz alguma normalidade de volta, cria-se algum diferencial em comparação aos anos anteriores que acaba animando muito os investidores. 

E quais os efeitos desse cenário?

É natural que haja um ciclo de aceleração do preço dos ativos. Quando há uma combinação de inflação e crescimento, normalmente, é muito bom para ativos de risco, especialmente para bolsa emergente e commodities. Não à toa estamos vendo esse movimento todo. 

Pela ótica da demanda já teria um impulso, só que ainda tem a lógica da oferta. Neste ano estamos passando por uma  combinação de La Niña com solar minimum no mundo que significa um frio extremo no Hemisfério Norte e um tempo bem mais seco no Hemisfério Sul. Então ainda há algumas complicações de oferta tanto de commodities de energia quanto agrícolas.

Soma-se a isso a perspectiva de aumento de investimento especialmente para mudar a matriz energética global, que acaba puxando o preço de metais básicos no mundo. Essa combinação rara deveria ser muito boa para o Brasil.

Não é o mundo lá fora que vai atrapalhar a alta dos ativos brasileiros. Isso é certeza. A maioria dos mercados emergentes globais e as commodities estão passando por uma aceleração de preços. Mas no caso do Brasil falta uma percepção dos investidores de que, de fato, existe uma trajetória fiscal equilibrada e que o governo vai começar a ajustar os gastos públicos para sair da linha de despesa e entrar na linha de investimento.

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Do que o Brasil precisa para ser a bolsa da vez?

O Brasil precisa mostrar para o investidor global que somos oportunidade de diversificação, com acesso a empresas de altíssima qualidade. Não estou pessimista para a bolsa no Brasil. Só acho que se fizéssemos nossa parte poderíamos estar andando muito mais. Por isso nossa carteira do [fundo multimercado] Blanc hoje, se já estivesse rodando, estaria com mais risco alocado em bolsa internacional e em commodity diretamente que na bolsa brasileira, ainda que mantivesse uma posição relevante nela.

Além de commodities, qual outro setor da bolsa brasileira a Grimper vê com bons olhos?

Temos bons olhos para o setor de saúde e o de tecnologia. Vemos boas oportunidades tanto no comércio eletrônico quanto em plataformas de fintechs.

Como avalia a onda de ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês), com várias empresas de tecnologia entrando na bolsa?

Tem muita coisa interessante vindo. Mas como sempre acontece quando há o rali, tem muita empresa que não sei se o preço justifica a qualidade do negócio, o que é absolutamente natural.

Há diversas empresas que vão se preparando ao longo dos anos para listar ações, mas na prática só conseguem fazer isso quando existe a combinação de liquidez e mercado em alta. Este é um desses momentos. Quando abre a janela de oportunidades, várias empresas acabam vindo ao mesmo tempo e dá essa sensação de enxurrada, mas na verdade não é. Não tinha essa janela aqui, e só empresas mais bem preparadas conseguiam vir para o mercado.

Quando os fundos já estiverem ativos, a Grimper pretende entrar nas ofertas?

Sim, mas muito seletivamente. 

Na semana que passou, o indicador de preço ao produtor dos EUA deixou o mercado mais cauteloso. Como a Grimper tem visto o cenário? A inflação pode ter alguma implicação na política de estímulos?

Estamos temporariamente passando por um movimento de aceleração de preços ao produtor. Isso ainda não é tão claro para os preços ao consumidor, tanto que o CPI (índice de preço ao consumidor, na sigla em inglês) está bem controlado. A inflação [americana] deve chegar perto de 3% pelo efeito base. Nesse nível em que está, os Estados Unidos vai deixar a política monetária bastante estimulativa.

No Brasil, a inflação preocupa? 

Sim. Sempre preocupa a inflação no Brasil, porque, no passado, toda vez que o país não conseguiu uma solução fiscal acabou escorregando para a inflação. Sempre temos que estar de olho.

Como vocês projetam a inflação no país?

A inflação vai acelerar no Brasil. Pelas nossas contas, ela supera os 6% no meio do ano, que é uma inflação acima do topo da banda (5,25%). Mas deve começar a ceder na segunda metade do ano para a casa dos 3,5% e 4%.

Deve haver muita preocupação com inflação no meio do ano. Já estamos vendo as curvas [de juros futuros] no Brasil estimando uma antecipação do ciclo de aperto monetário.

O mais provável, porém, é que o ciclo de aperto monetário seja relativamente gradual porque se não fosse esse suporte fiscal que o governo está dando, a atividade estaria desacelerando muito rapidamente. O Banco Central vai ter muito cuidado com a magnitude do aperto e com o sinal que vai dar para o mercado.

Até que patamar a taxa Selic pode chegar?

Neste ano deve chegar a 3,5% ao ano. No médio prazo, com o PIB potencial do Brasil relativamente baixo e trabalhando com premissa de que o teto de gastos vai ser mantido — seja com PEC Emergencial ou reformas –, devemos trabalhar com juro real na casa de 2% a 3% na ponta curta. Se isso se concretizar, estamos falando de uma Selic nominal caminhando para a casa dos 5% a 6% ao ano. 

Quão importante é ter Legislativo e Executivo alinhados para o avanço de pautas econômicas?

Ter Legislativo alinhado com o Executivo tem um enorme valor no Brasil. A questão é que o Executivo e o Legislativo precisam estar empenhados com a agenda de reformas. É isso que vamos testar nos próximos meses.

O alinhamento parece ser grande agora. Mas precisamos ver a agenda de reformas, de fato, andando, especialmente a PEC Emergencial no curto prazo. Mas, mais do que tudo, é a reforma administrativa que vai definir se o Estado vai conseguir caber dentro do orçamento.

Com a agenda andando e alguma elevação da taxa Selic, devemos ver o dólar caindo no Brasil?

Sim. Praticamente todas as moedas emergentes já estão sendo negociadas a níveis muito próximos ao do pré-pandemia. O real é uma das poucas moedas que não voltou tanto assim. Mas, pelos nossos modelos, sem colocar na conta o risco-Brasil (porque nossa dívida externa é muito baixa), não vemos o real totalmente fora de preços.

O Brasil está atraindo pouco dinheiro para investimentos estrangeiros diretos e perdeu a atratividade de passar o caixa porque nosso juro real é um dos mais baixos do mundo. Sendo otimista para o cenário brasileiro, acho a bolsa muito mais interessante do que a moeda.

Se essa agenda começar a andar em um mundo em que o preço das commodities continua elevado e a animação para ativos de risco continua alta, claro que o real deve testar níveis mais altos, mas, pensando com cabeça de hedge fund, é a posição que menos me anima de usar como um vetor positivo.