domingo, fevereiro 28

Como a pandemia alavancou o nicho de conteúdos eróticos exclusivos

Já não é segredo que a pandemia mexeu com o emocional das pessoas. Já conversamos com psicólogas e sexólogas para entender melhor as carências e as abstinências a que nos sujeitamos durante o período de quarentena, algo que fez o consumo de pornografia aumentar, e levantou debates sobre o sexo virtual. No entanto, um nicho que também tem sido verdadeiramente alavancado pela pandemia é o de conteúdos eróticos exclusivos.

Quando se fala de conteúdo adulto exclusivo, a primeira coisa que vem à mente é o Onlyfans, serviço de conteúdo por assinatura com sede em Londres, no Reino Unido. Criadores de conteúdo podem ganhar dinheiro de outros usuários do site que assinam seu conteúdo. É popular na indústria de entretenimento adulto, mas também hospeda criadores de conteúdo de outros gêneros.

Mas em seu nicho principal, a rede social foi responsável por abrir portas para uma nova forma de se ganhar dinheiro com o corpo, e da maneira mais tech possível: com fotos, vídeos e interações virtuais. O Canaltech procurou o Onlyfans para entender como está a situação na pandemia, e a equipe revelou um total de 500 mil usuários novos por dia.


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A busca por conteúdo adulto exclusivo na pandemia

Atualmente, o total de criadores de conteúdo presentes na plataforma ultrapassa a marca de 1 milhão, enquanto o total de assinantes ultrapassa a marca de 100 milhões. Os criadores chegaram a faturar, juntos, cerca de US$ 3 bilhões (o equivalente a R$ 16 bilhões), e mais de 200 deles faturaram, sozinhos, US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões).

Na esteira do Onlyfans, outras empresas passaram a investir no conteúdo exclusivo, como a Privacy, que começou a ser desenvolvida em janeiro e foi lançada em setembro de 2020 pelos empreendedores Fábio Monteiro, Victor Albuquerque e Vanderson Tibau, que viram no Brasil e no mundo o “boom” meteórico de redes sociais com a estratégia de monetizar conteúdos exclusivos. E em meio a pandemia, essa rede se fortaleceu e os amigos identificaram uma oportunidade de trazer ao Brasil a mesma proposta.

“Nós, como seres humanos, precisamos de contato e interação para saúde física e mental. Com a pandemia, as pessoas se viram privadas disso e a forma tradicional de consumir conteúdo sensual e adulto mudou, acelerando assim a mudança que já estava em iniciando. As pessoas querem consumir um conteúdo mais íntimo e personalizado, sem tanta produção”, analisa Fábio Monteiro.

Como a pandemia alavancou o nicho de conteúdos eróticos exclusivos (Imagem: Timo Wagner/Unsplash)

“Nós entendemos que, hoje em dia, a criação de conteúdo está tão em alta, que ao mesmo tempo que existe facilidade, existe confusão. Somos diariamente bombardeados com conteúdo em vídeo, texto, áudios, fotos, que nos prendem a rede, e a cada dia nos deixam menos interessados. Anos atrás, ver a foto de uma pessoa bonita que te chamava atenção, era motivo de felicidade diária. Hoje em dia, vemos a foto, e já passamos para a próxima. Nós queremos ser o contrário disso, queremos dar a sensação de conteúdo único, exclusivo, e os usuários buscam essa seleção de conteúdo cada vez mais”, o CEO da Privacy complementa.

Questionado se a busca por conteúdo exclusivo vai aumentar ao longo de 2021, considerando esse crescimento ocorrido justamente por causa da Pandemia, Fábio estima: “Nossas expectativas são bem positivas. A quarentena fez com que as pessoas em geral ficassem mais tempo nas redes sociais, e isso faz com que elas busquem por conteúdo exclusivo, personalizado, e que crie um ‘funil’ com conteúdo que realmente interesse, afinal, você recebe fotos e vídeos do seu criador favorito, que eles não divulgam para todo mundo”.

Fábio ainda conclui que a quarentena foi um catalizador para surgirem mais criadores de conteúdo, e que as pessoas se viram com mais tempo livre e muitas vezes sem uma fonte de renda.

A visão de dentro

Considerando que nada se compara com a experiência obtida na prática, a nossa equipe conversou com oito criadoras de conteúdo adulto exclusivo, almejando compreender os impactos trazidos pela pandemia nessa área.

Para a influenciadora Maikelly Mühl, que reúne 1 milhão de seguidores no Instagram e se intitula rainha do Close Friends (recurso do Instagram que permite fazer stories exclusivos), houve um aumento geral na busca por conteúdo exclusivo. “Como muitas pessoas ficaram em casa e com mais tempo livre, muitas passaram a consumir mais conteúdo na internet. Percebi que muitas produtoras de conteúdo se lançaram no mercado, ativando a sua base de seguidores, e isso fez com que novos consumidores se formassem. Então, acredito que os números aumentaram para os dois lados: quem cria e quem consome”, analisa.

Enquanto isso, a criadora de conteúdo Kat Vans observa que foi natural a forma com que as pessoas começaram a procurar entretenimento virtual. “Devido a falta de contato com outras pessoas, sejam familiares ou colegas de trabalho e amigos, essa carência física e emocional acabou sendo descontada na Internet”, reflete. Kat acredita que o aumento de criadores de conteúdo pode ter sido causado pela busca por uma renda sem precisar se expor a riscos saindo de casa. “Mas eu vejo também um crescimento grande de consciência feminina no sentido de liberdade pessoal, e consequentemente liberdade sexual. Junta com a necessidade de independência financeira, temos a busca por esse tipo de trabalho. Foi o meu caso, antes mesmo da pandemia. E vejo ser o caso de muitas amigas também”, aponta.

(Imagem: Anna Shvets/Pexels)

Amra, que cria esse tipo de conteúdo desde 2017, também diz notar uma popularização pelo conteúdo exclusivo. “Diferente do pornô tradicional, que é apenas consumo de pornografia, agora busca-se uma experiência diferenciada, mais interativa. Falar com a modelo, conhecê-la, fazer amizade. Eu, pelo menos, senti bastante diferença no perfil do consumidor. A gente acaba fazendo o papel de amiga, namorada virtual, confidente, às vezes até psicóloga”, conta.

Na opinião de Amra, aumentou o número de modelos, pela ideia de “dinheiro fácil”. “Mas poucas realmente investem na carreira quando percebem que é muito mais difícil e cansativo. Não é só criar conteúdo: é marketing, propaganda, estudo de mercado, saber se reinventar, adaptar, evoluir, dedicar tempo para o trabalho. Tem que trabalhar pesado e ter apoio psicológico para lidar com todo tipo de pressão. Mas, felizmente, há um público muito bacana ultimamente, que trata a gente muito bem, e é nele que a gente tem que focar”, aponta a criadora de conteúdo.

Já na visão de Anna Códon, que começou há três anos por meio de um Instagram privado, houve também um aumento de clientes buscando conteúdos por um preço mais baixo, o que não é uma coisa muito boa para sua profissão. “Houve um grande aumento de meninas tentando trabalhar com venda de conteúdos. Muitas acabam desistindo depois de alguns meses, e eu particularmente acho isso prejudicial pra quem realmente leva a criação de conteúdo a sério, porque essas meninas aparecem vendendo conteúdos a preço de banana para fazer dinheiro rápido, e acabam deixando os clientes mal acostumados, achando que geral precisa ter aquela faixa de preço também”, revela.

Joy Mermaid, que vê nos conteúdos exclusivos uma maneira de trabalhar de maneira autônoma e flexível, conta que seu primeiro mês com um retorno financeiro satisfatório no Onlyfans foi justamente em Março, no começo da pandemia: “Tem sido maravilhoso, porque consigo ficar muito mais tempo em casa e tenho conseguido mais tempo para me dedicar a divulgar e produzir conteúdos. A procura por um trabalho remoto aumentou e consequentemente no meio das sex workers também, justamente pela liberdade que nos traz”.

Enquanto isso, Rasta Girl, que trabalha no ramo há dois anos, observa que esse aumento de demanda aconteceu não só com o conteúdo adulto, mas também com qualquer evento transmitido online. “Muitas sex workers da pandemia estão aparecendo online e é normal que as pessoas pensem que a maioria delas veio porque precisava de dinheiro. Em parte, isso é verdade, mas acontece independente da pandemia. O que pouca gente percebe é que parte dessas meninas que entraram agora já eram sex workers de trabalhos offline e só estão se adaptando à quarentena, e muitas com certeza vão ficar em definitivo no Onlyfans”, observa a criadora de conteúdo.

Já Wichitak chegou a vender conteúdo exclusivo até uns dois anos atrás e parou, retornando apenas com o início da pandemia. “Para mim, conforme o tempo foi passando, mais pessoas foram entrando. Mas é um ciclo, temos épocas com muita procura, e épocas com pouca. Acho que a falta de emprego, e a possibilidade de ganhar dinheiro em casa, junto com a popularização da plataforma, fez com que muito mais gente entrasse no mercado, principalmente na ilusão de que ganharia muito dinheiro rapidamente”, opina.

Para Luna Wolfy, que integra o Grupo F!re juntamente com outras 8 garotas, esse aumento não foi só por conta da pandemia: “Claro que o fato das pessoas estarem em casa um tanto entediadas facilitou para que algumas meninas que trabalhavam ou ainda trabalham fora tivessem tempo pra testar esse ramo, sem falar que como a visualização em cima das criadoras de conteúdo aumentou, elas começaram a abrir suas mentes para o conteúdo adulto exclusivo”.

Os desafios da criação de conteúdo exclusivo

(Imagem: Valeria Boltneva / Pexels)

Entretanto, mesmo que seja um nicho em pleno ápice, a criação de conteúdos adultos exclusivos também tem seus desafios. Dentre os mais citados pelas entrevistadas, destaca-se a volatilidade desse mercado e a pressão social. “Quando você decide ir para esse lado, sabe que vai encontrar uma pressão social absurda, que muita gente vai te xingar, te ofender, sem nem te conhecer ou sequer entender o que você faz. O sexo e o trabalho sexual são tabus”, menciona Amra.

“Para a maioria das meninas é lidar com o julgamento, já que muitas pessoas sem entendimento do assunto acham erroneamente que venda de conteúdos é o mesmo que prostituição. E também tem o desafio de lidar com compradores que acham que estão te fazendo um favor ao chegar interessados para adquirir algo”, opina Anna Códon.

“O que eles não entendem é que plataformas como o Onlyfans são a revolução da indústria sensual e pornô, você apoia diretamente as modelos, sem dar dinheiro a empresas que só lucram em cima da imagem de outras pessoas”, complementa Joy Mermaid.

Wichitak ressalta que uma das partes mais difíceis é lidar com o que as pessoas acham sobre isso não ser um trabalho de verdade, e com uma errônea impressão de que as profissionais da área são fúteis. “Ser vista apenas como um objeto, e não como pessoa intelectual, inteligente e que tem uma vida normal”, expõe a criadora de conteúdo.

Já para Rasta Girl, os desafios incluem o inglês e o fuso horário, considerando que a maioria esmagadora dos clientes acaba sendo de outros países. Enquanto isso, para Luna Wolfy, os maiores desafios envolvem a restrição da divulgação da venda de conteúdo adulto. “Outro fato que eu acho bem desafiador é o mental, as criadoras de conteúdos são muitas vezes atacadas verbalmente por outras pessoas pela questão do preconceito, e também tem muitos homens que tratam a gente como um tipo de robô que está ali pra ele fazer o que quiser. Não é assim que funciona, isso afeta muito o psicológico das meninas”, ressalta.

Kat Vans levanta o olhar para outras questões: “Precisamos trabalhar demais. É como ter uma empresa, mas é só você sozinha, então você precisa aprender muitas coisas, desde parte técnica em criar conteúdos, até marketing pessoal e finanças”, observa. No entanto, a criadora de conteúdo também menciona a questão mental. “Outro desafio é o psicológico, porque você está em constante contato com o mais diverso público masculino que conseguir imaginar. Diria que terapia é necessária”.

Leia a matéria no Canaltech.

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