sábado, fevereiro 27

Commodities, inflação, juros e câmbio: Bolsonaro e seus fantasmas

A queda do presidente da Petrobras simboliza o escancaramento de um pensamento de boa parte do governo em que o Ministro da Economia cada vez mais fica isolado. A ideia de que o governo era liberal, o que nunca foi, fica definitivamente enterrada e deve levar o mercado a operar com mais clareza também em relação ao governo.

Se antes havia alguma dúvida sobre a capacidade de o ministro Paulo Guedes conseguir segurar o ímpeto intervencionista do governo, agora não há mais. Ele infelizmente mostra que não consegue jogar nem mais na defensiva.

Essa sinalização, junta a outra como mexer nas tarifas de energia, já contratadas para subir pelo menos 13% este ano, vai continuar trazendo instabilidade ao mercado durante os próximos dois anos. Isso porque são duas ideias equivocadas em conjunto, pois além da intervenção em si considera-se a possibilidade de fundos fiscais de compensação para amortecer as altas de preços. Em um momento em que o fiscal voltou a ser o centro da questão falar em fundos desse tipo só piora a expectativa sobre o ajuste necessário.

Ainda mais, o presidente da Câmara cada vez mais tem dado sinais de querer aumentar o poder da Casa em controlar o orçamento, mas não com o intuído de ajustes. Perderemos tempo discutindo a pauta de desvinculação de gastos em um governo fragilizado e em pauta que claramente a sociedade civil será contra, especialmente por cortar os vínculos institucionais dos gastos com saúde e educação.

A própria PEC emergencial a ser aprovada essa semana tem muito pouco de sua força original e terá foco no auxílio emergencial. A ideia de jogar a desvinculação de gastos com saúde e educação nesta PEC apenas mostra como a pauta fiscal está desorganizada. O controle de aumento de salário dos servidores, diga-se de passagem, será uma pá de cal política na reforma administrativa, qualquer que seja ela.

Mas a queda de braço do mercado com o governo se estenderá também pela razão de que os preços de commodities tendem a continuar subindo. O crescimento chinês junto com a desvalorização do dólar e a expectativa de investimento em infraestrutura nos EUA tem indicado que esses preços continuarão pressionados pelo menos este ano. Ao juntarmos a deterioração cambial, o cenário das commodities em reais fica ainda mais intenso.

De fato, o gráfico abaixo mostra o forte crescimento em reais dos preços de commodities no último ano, especialmente agrícolas e metálicas. Mais recentemente, com a recuperação da economia mundial, o preço do petróleo voltou a dar sinais de que pode chegar até US$ 70 o barril. Isso porque a desestruturação de investimentos no último ano no shale oil pode levar a uma recuperação mais lenta da produção, sem falar na intenção do governo americano de que essa não seja a fonte de energia preponderante nos próximos anos.

Índice de preços de commodities em reais

Índice de preços de commodities em reais

Esse forte movimento de preços em reais das três commodities é inédito no país nas últimas décadas e a isso se junta o desequilíbrio nas cadeias industriais por conta da pandemia que atrapalhou processos produtivos como no caso do aço. O impacto nos preços ao consumidor ainda pode aparecer com a recuperação lenta da economia sancionando repasses graduais desses preços.

Esse cenário colocará pressão recorrente sobre o presidente, que ao tentar fazer populismo tarifário às voltas com a eleição em 2022 terá como efeito a reação cada vez mais negativa do mercado.

A ideia que tem sido aventada por alguns analistas políticos que o presidente se torna imbatível com um novo boom de commodities esbarra na questão de que o impacto na inflação agora tem menos válvulas de escape que tinha no governo Lula/Dilma, que, ao permitir uma meta de inflação de 4,5% até 6,5% de teto, permitia espaços de impacto que acomodavam pressões sobre os juros. Agora, com meta de inflação de 3,5% em 2022 e um Banco Central muito mais atento, a reação provável poderá ser um aumento de juros mais agressivo do que se esperava. Se isto for verdade, o presidente também vai querer colocar um general na presidência do banco? Claro que não devemos chegar a tanto, mas apenas dá a ideia de um presidente emparedado por pressões de diversos preços (commodities, energia, juros e câmbio), mas sem capacidade de reagir como se deveria pelo foco exclusivo na eleição. Para quem gosta de volatilidade os próximos dois anos serão bastante intensos.

*Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados