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Aumento de influenciadores negros mostra um mercado atento à diversidade

No programa Conversa com Bial, que foi ao ar no dia 4 de setembro, na Rede Globo, o músico Caetano Veloso revelou que havia deixado de seguir o liberalismo econômico e, na ocasião, citou sua principal influência nessa tomada de decisão: “Foi através de um moço de Pernambuco que se chama Jones Manoel e é um youtuber. Eu fiquei muito impressionado e gostei dele falando”. Ideologias à parte, o fato é que, com 111.000 inscritos em seu canal no YouTube, Jones integra um grupo emergente nas redes sociais: os ­influenciadores digitais negros.

Os influenciadores negros aproveitam o espaço democrático das redes para falar diretamente com sua audiência. Falam de comportamento, expõem seus trabalhos, vendem os próprios produtos e fazem campanhas para marcas. “Comecei a postar fotos minhas no Instagram há três anos. Como recebia muitos comentários elogiando principalmente meu cabelo, resolvi fazer vídeos para o YouTube com dicas de cuidados para cabelos crespos e de beleza, sempre com uma boa dose de humor”, diz a fluminense Camilla de Lucas. Em sete meses, o canal contava com 100.000 inscritos.

<span class=”hidden”>–</span>Bruno Passa/Divulgação

Apesar do status de celebridade da internet, o ator, humorista e apresentador fluminense Yuri Marçal não se considera um digital influencer. “Eu sou ator por formação e comediante stand-up por paixão e talento. A internet acaba sendo um meio de divulgar meu trabalho”, afirma. Atuando como humorista desde 2016, foi pouco tempo depois que Yuri se rendeu aos encantos das redes sociais, fazendo seus próprios vídeos em casa.

Há quatro anos a professora de física e mestre em educação Michele Passa atua como digital influencer. Sua trajetória começou quando se mudou do Rio Grande do Sul para São Paulo e teve acesso a movimentos que não existiam lá: “Eu comecei a questionar alguns padrões de beleza e resolvi voltar ao meu cabelo natural”. Trajetória parecida teve a maquiadora e esteticista Camila Nunes, de Niterói.

Nas redes desde 2012, tudo começou apenas como um hobby: “Não era nada profissional, até que, após um curso de maquiadora eu encontrei dificuldades em ter referência quando o assunto era maquiagem para a pele negra. Foi daí que comecei a compartilhar o assunto e minhas experiências”.

<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Divulgação

Diante da ausência de produtos voltados para o público negro, Rosangela José da Silva criou no Rio de Janeiro a empresa Negra Rosa, com linhas de cosméticos que atendem mulheres negras. Sem loja física, mas com produtos sendo comercializados pelo site oficial, revendidos por outras lojas e por revendedoras autorizadas, a equipe fixa da empresa conta com seis funcionários, incluindo a própria Rosangela. “Acabo sendo a influencer oficial da Negra Rosa, o rosto da marca”, diz a proprietária.

A mestra e doutoranda em ­ciên­cias humanas e sociais Taís Oliveira destaca o papel do influenciador na sociedade atual. “Com o enorme alcance, ele se torna uma referência na construção e disseminação de informações.” Autora de uma dissertação sobre o afroempreendedorismo no Brasil, ela aponta a importância dessa representatividade. “Por muito tempo, quase a totalidade das comunicações de massa foi feita por pessoas não negras, em um país em que 54% da população se declara negra.”

Apesar da procura de grandes empresas para parcerias pagas, o racismo ainda opera nesse meio, de acordo com Michele Passa. “Muitas marcas nem sequer me seguem nas redes sociais, mas repostam meu conteúdo sem minha autorização. A impressão que tenho é que, se eu não fosse negra, eles teriam mais respeito e empatia.” Camila Nunes reforça o coro. “Assim como em todas as áreas, o mercado ainda se comporta de forma racista e preconceituosa ao não enxergar nossa potência, quanto somos capazes de realizar um bom trabalho e quanto nossa imagem é importante naquele espaço.”

<span class=”hidden”>–</span>Reprodução/Instagram

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