segunda-feira, abril 5

Ameaça para as cervejas? Grupo da Itaipava passa a vender seus lúpulos

O Brasil é um dos países que mais produzem e consomem cerveja. E foi graças à sede de crescimento de três brasileiros, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, que a AB Inbev virou o gigante que é. O país tem até um estilo de cerveja para chamar de seu, o catharina sour, o primeiro a ser classificado dessa forma, em 2018 – em resumo, é uma versão frutada do berliner weisse. Daí a dizer que cerveja é uma bebida brasileira são outros quinhentos. E a principal razão é essa: o lúpulo, o ingrediente que confere aroma e amargor ao produto (cervejeiros mais hipsters falam em alma) é quase sempre importado. A planta, cuja flor se assemelha à da maconha, não à toa da mesma família – os efeitos psicotrópicos são uma exclusividade da segunda –, chega em sacas de países como Estados Unidos, Alemanha, Austrália e República Checa.

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Braza Hops: german pils com lúpulo verde-amareloDivulgação/Divulgação

Não é o caso dos lúpulos usados na produção da Braza Hops, a german pils lançada pela Black Princess em outubro de 2020. Esses foram colhidos em Teresópolis, no Rio de Janeiro, e produzidos pela holding que controla a Black Princess, o Grupo Petrópolis, fabricante também da Itaipava e da Petra, entre outras marcas. Em parceria com o Viveiro Ninkasi, a empresa planta variedades de lúpulo oriundas de outros países desde 2018 – o projeto já consumiu 2,5 milhões de reais. Começou com 316 mudas, de 10 espécies, para testar a adaptabilidade de cada uma, e ganhou mais 7.000 pés em 2019 – para 2021 a meta é chegar a 20.000. Para a Braz Hops foram selecionadas quatros espécies – cascades, chinook, triple pearl e comet. “Elas conferem notas herbais, florais e alguma picância à cerveja”, explica Diego Gomes, diretor industrial do Grupo Petrópolis e responsável pela iniciativa dos lúpulos.

Nesta segunda-feira (5), eles começam a ser vendidos, em flor, no e-commerce do Grupo Petrópolis, o BomDeBeer.com.br. Três variedades estão disponíveis – cascade argentino, triple pearl e comet – a 24,99 reais, o pacote de 100 gramas. O lote tem validade de dois anos, com entrega nacional. Primeiros do país a obter aval do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, os lúpulos fluminenses tendem a facilitar a vida de produtores de cervejas artesanais e a fomentar o nicho que eles representam – para grandes produtores não compensa usar o ingrediente em flor. “Não faz sentido guardar essa conquista só para nós e nos interessa muito ouvir a opinião de outros cervejeiros”, diz Gomes. O grupo também planeja usar os próprios lúpulos para elaborar outras de suas cervejas especiais, ainda não definidas.

Diego Gomes, Diretor Industrial do Grupo PetrópolisDivulgação/Divulgação

Não foi a primeira companhia a mergulhar na ideia. Hoje nas mãos do Grupo Heineken, a cervejaria Baden Baden, de Campos do Jordão, lançou um rótulo comemorativo feito só com lúpulos nacionais em 2014. Vieram de um pequeno produtor de frutas enraizado em São Bento do Sapucaí, também em São Paulo. A segunda parceria, de 2017, deu origem à Marzen, de estilo homônimo. Também há notícias de pequenos produtores de lúpulos em Minas Gerais, Santa Catarina e Distrito Federal. “A viabilidade desse tipo de produção depende, sobretudo, do padrão de qualidade”, aconselha Gomes. “As principais características do produto não podem mudar a cada ano”. Com receita parecida, é bom lembrar, Lemann, Telles e Sicupira fizeram da Brahma a AB Inbev.