quarta-feira, abril 7

A ciência pode ser usada para defender que vivemos em uma simulação?

Nossa relação com a realidade e o modo como nossa percepção pode ser ludibriada é um tema recorrente na filosofia. Não faltam autores com alegorias para falar sobre o tema, e o assunto ganhou novas proporções por causa da trilogia cinematográfica The Matrix. Normalmente, trata-se de uma reflexão metafórica, mas há quem garanta: provavelmente vivemos em uma simulação de computador. Será?

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Um cérebro em uma cuba não acredita que está em uma cuba (Imagem: Reprodução/Gaetan Lee)

A ideia de simulacro é antiga. Remonta à época de Platão, com sua alegoria da caverna, ou até mesmo ao hinduísmo e o conceito de Maya. Filósofos posteriores, como René Descartes, e mais recentes, como Jean Baudrillard, nos trazem uma série de questionamentos sobre o que é real e o que não é. Será que nosso cérebro, ou melhor, nossos cinco sentidos são confiáveis para discernir a realidade?

O que antes era um assunto para a filosofia e religião ganhou roupagem moderna com a alusão a computadores. Hilary Putnam, por exemplo, usou o conceito de “cérebro numa cuba”, inspirado no “gênio maligno” de Descartes, para nos desafiar em um exercício mental: você consegue provar que você não é um cérebro mantido vivo em um aquário por um cientista do mal?” Provavelmente você não consegue, e está tudo bem. Putnam e Descartes também não podiam provar que somos um cérebro num balde qualquer.


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Mas após o sucesso de The Matrix, as coisas começaram a ficar um tanto esquisitas. Claro, tudo bem questionar se somos simulacros em uma realidade virtual criada em um computador — o objetivo do filme, ou ao menos um dos objetivos, é realmente nos causar essa inquietação. Mas o que aconteceu depois? Surgiu uma série de autores usando a linguagem utilizada pelas irmãs Wachowski, diretoras da trilogia de filmes, para resgatar as antigas reflexões filosóficas. E até aqui, tudo bem. Mas também apareceram cientistas usando argumentos supostamente científicos para endossar a ideia.

De acordo com a ideia de simulação, tudo o que vivenciamos não passa de códigos de computador feitos por um ser inteligente (e provavelmente muito maldoso). Vivemos e fazemos parte desse código, sem ter nenhuma consciência do “nível acima” de nós, ou seja, a “verdadeira” realidade. Podemos levar muitas horas argumentando a respeito no campo filosóficos, e não há problema algum que algumas pessoas cogitam estarem vivendo em uma simulação feita por computador, desde que a ciência não seja usada de modo equivocado. O problema começa quando os argumentos científicos usados para defender essa hipótese são… anticientíficos.

A hipótese de simulação é pseudociência

Ao contrário do cérebro numa cuba, a caverna de Platão e outras alegorias filosóficas do gênero implicam na escolha de conhecer novos conceitos de realidade (Imagem: Reprodução/Instituto Imagik)

É verdade que, segundo nosso conhecimento atual, as leis da natureza são matemáticas. Então parece lógico afirmar que o universo pode ser apenas um supercomputador de poder absurdo computando essas leis. Mas essa hipótese assume que existe outro nível de realidade onde alguém ou alguma coisa controla essas leis da natureza, com o poder de até mesmo interferir nessas leis. Isso pode ser bom para a filosofia, mas não é saudável para a ciência, porque estamos inferindo a existência de um ser poderoso em uma camada superior da realidade.

Não precisamos comparar a crença nesse ser onipotente com a religião para mostrar o quão problemático ela pode ser. Na verdade, o problema é justamente que os defensores dessa hipótese afirmam que chegaram a essa conclusão por meio da lógica, e não da fé. O filósofo Nick Boström, um dos nomes que mais se destacou na década de 2000 ao dizer que provavelmente vivemos em uma simulação, afirma que “nós temos razões empíricas interessantes para acreditar que uma certa afirmação disjuntiva sobre o mundo é verdadeira”.

Segundo Boström, se você acredita que a nossa civilização um dia fará simulações muito sofisticadas no tocante aos seus ancestrais, então deve acreditar que estamos provavelmente numa simulação ancestral neste momento. Em outras palavras, se a humanidade chegar ao ponto em que desenvolverão a tecnologia da simulação, então o número de pessoas simuladas com experiências exatamente como as nossas será imensamente maior do que as não simuladas.

Ele prossegue, dizendo que “a não ser que estejamos vivendo agora em uma simulação, nossos descendentes quase certamente nunca executarão simulações ancestrais”. Há uma série de deduções feitas baseadas em um jogo filosófico — que é interessante, na verdade — que, infelizmente, acaba misturando ciência com crenças não baseadas em evidências. Pior ainda, crenças baseadas em ideias já refutadas pela ciência. Mas já chegaremos lá.

Vivemos em uma época em que a ciência precisa não apenas ser levada mais a sério, como também deve receber um cuidado especial no que diz respeito à comunicação. A divulgação científica cumpre um papel importantíssimo nos dias atuais, e misturar o método científico com crenças e jogos de palavras pode ser muito danoso. Elon Musk e Neil DeGrasse Tyson alguns dos nomes famosos no meio científico que endossaram publicamente a possibilidade de que vivemos em uma simulação, e essas talvez não sejam as melhores contribuições dessas pessoas para a ciência.

(Imagem: Reprodução/Magnolia Pictures)

Mencionamos antes que a intenção não é comparar essa crença na “inteligência no nível superior de realidade” com a religião, como se estivéssemos tratando de uma dualidade ciência x religião, mas é importante destacar em que a ciência se diferencia da religião. O problema não é que as pessoas acreditem que Moisés abriu o Mar Vermelho, ou que Jesus curou doenças — o problema é que não há meios de saber como isso foi feito. São milagres, ou você aceita, ou não.

A ciência não precisa ser uma antagonista dessas crenças, mas precisa cumprir seu papel de buscar o como e o porque de todas as coisas. Foi assim que Isaac Newton elaborou suas leis da gravitação universal, e depois dele Albert Einstein descreveu o universo com uma nova teoria gravitacional. Então, de volta ao argumento de Boström, ele assume uma postura que é anticientífica: a de que é possível reproduzir todas as nossas observações usando um algoritmo criado fora de nossa realidade. Se levarmos esse raciocínio a cabo, concluímos que é fácil reproduzir os fundamentos da física com outra coisa.

Uma coisa que podemos ter certeza é que não, não é fácil “programar” os fundamentos da física. Embora os cientistas de hoje usem muitas simulações de computador para testar modelos cosmológicos, isso ainda é muito limitado. Ninguém sabe como reproduzir a Relatividade Geral e o Modelo Padrão da física de partículas a partir de um mesmo algoritmo de computador, simplesmente porque ambas as teorias são incompatíveis, embora sejam corretas. Os cientistas ainda estão tentando encontrar uma Teoria de Tudo para conciliar essas duas coisas que, observacionalmente, são verdadeiras, mas não fazem sentido se colocadas lado a lado.

Já foram realizadas tentativas de reproduzir algoritmicamente as leis naturais, sem muito sucesso. Poderíamos falar em computadores quânticos, mas eles são feitos para simulações quânticas, e não podem reproduzir a Relatividade Geral. Você pode ainda argumentar que a civilização que criou nossa realidade em códigos de computador é muitíssimo mais avançada tecnologicamente e, portanto, sabe como fazer essas coisas. Mas a resposta é não, porém falaremos disso mais adiante. Vamos continuar com os argumentos de Boström.

Computador quântico da IBM (Imagem: Reprodução/IBM Research)

Para que o pensamento do filósofo funcione, uma civilização precisa ser capaz de simular muitos seres conscientes, e esses seres conscientes tentarão eles próprios simular seres conscientes, e assim por diante. Vamos deixar de lado os conceitos científicos de consciência porque isso ainda é um assunto pouco compreendido, mas esse raciocínio implica que todas essas consciências simuladas por consciências estarão rodando em um único computador — o de nosso ser inteligente no nível superior de realidade. É muito processamento, não é? Além disso, ainda não fazemos simulações que criam suas próprias simulações (ao menos meus Sims ainda não criaram seus próprios Sims).

Mais uma vez, a linha de raciocínio de Boström se distancia da ciência: ele não explica como isso seria. Se nosso programador no nível superior de realidade for esperto, ele está neste exato momento poupando processamento de dados em regiões do mundo simulado onde não há ninguém por perto. Se não o fizer, processar todas as leis da física — que, conforme vimos, não é algo fácil de fazer — do nosso planeta inteiro ininterruptamente causaria problemas na máquina que processa os códigos do simulacro. E, se o programador faz essa “suspensão”, como isso funciona?

São perguntas difíceis de responder, feitas não para tentar refutar a ideia de que vivemos em uma simulação, mas para afastá-la do argumento de que essa é uma ponderação científica — ou pior, uma questão meramente sobre probabilidades, como alguns dizem. A ciência sempre quer saber e sempre vai tentar explicar qualquer coisa que observe, enquanto o pensamento do filósofo se baseia mais em crença do que em raciocínios científicos.

Mas o que a ciência realmente diz?

(Imagem: Reprodução/Magnolia Pictures)

Embora não seja papel dos cientistas provar que vivemos em um mundo de verdade — afinal, o ônus das evidências é dos proponentes da hipótese — alguns pesquisadores fizeram alguns testes para saber se há alguma chance de nossa realidade não passar de códigos em um computador. Os físicos teóricos Zohar Ringel e Dmitry Kovrizhin, da Universidade de Oxford e da Universidade Hebraica de Israel, publicaram seus resultados na revista Science Advances em 2017.

Kovrizhin descreveu a matemática necessária para simular apenas algumas partículas de nosso mundo girando (spin) em um determinado estado quântico. Devido à natureza da física quântica, os recursos computacionais necessários para simular isso cresceriam rápida e exponencialmente. Se pensarmos em todo o conteúdo necessário para descrever a forma para se recriar a partícula, conteúdo exigiria uma potência computacional que não poderia ser criada.

Apenas para armazenar os dados de 20 spins de partículas, explica Kovrizhin, seria necessário 1 TB (terabyte) de memória RAM. Não é grande coisa, mas estamos falando de uma única partícula fundamental. Para conseguir memória capaz de simular um universo como o nosso, é preciso um número absurdamente gigantesco de átomos no computador de nosso “programador maligno”: o total de átomos estimado em todo o universo. Em outras palavras, se toda a matéria do nosso universo fosse usada para criar essa simulação, ainda assim seria insuficiente.

Pense agora na complexidade das fusões e fissões nucleares que ocorrem no universo, transformando moléculas de poeira e hidrogênio em estrelas, que por sua vez explodem em supernovas ou se transformam em buracos negros. Pense em quanta tecnologia já desenvolvemos e continuamos a desenvolver para olhar cada vez mais longe no universo, e ainda assim não conseguimos observar muitos mistérios cósmicos. Ufa! Quantas linhas de código.

Podemos também pensar na química dos nossos neurônios, hormônios e toda a informação de nosso DNA. Teoricamente, 1 grama de DNA consegue carregar 455 exabytes de informação, segundo um estudo de 2015. Se os cientistas já conseguiram extrair e sequenciar o DNA de ossos de cavalos de 700.000 anos de idade, imagine quanta informação há nas células do celular e nas mitocôndrias dos animais e vegetais do planeta. A pergunta que fica é: como se reproduz o DNA em uma simulação de computador?

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