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2021 será o ano da Bolsa e dos emergentes, mas risco de bolha não está descartado, dizem experts do mercado

2021 (Vladislav Murashko/Pexels)

SÃO PAULO – O saldo da pandemia no mercado financeiro em 2020 inclui: seis circuit breakers em um mês, companhias aéreas desabando até 36% em um dia, o petróleo fechando no negativo pela primeira vez na história, o Ibovespa despencando dos 118.573 de janeiro para os 63.569 pontos na mínima em março e muitos outros episódios que só não foram mais dramáticos por causa da injeção recorde de estímulos dos governos, que somaram US$ 25 trilhões em 2020, segundo levantamento do Bank of America.

Mas diante de uma economia global encharcada de recursos, qual será o saldo de 2021? É o que você confere no Radar especial de fim de ano. Esta edição especial do programa, que vai ao ar de segunda a sexta no canal do InfoMoney no Youtube, faz uma pausa no noticiário diário e frenético do mercado para trazer uma análise sobre o que esperar da economia, da Bolsa e da renda fixa em 2021.

Para isso, o programa contou com a participação de: Fernando Ferreira, estrategista-chefe e head de research do grupo XP Inc., que entre 2009 e 2020 sempre esteve presente na lista de melhores analistas de ações da revista Institutional Investor, seja no Brasil, na América Latina e Europa, os três mercados nos quais atuou no período; e Rodrigo Azevedo, ex-diretor de política monetária do Banco Central e sócio-fundador da Ibiuna, uma das gestoras mais tradicionais do país, com mais de R$ 20 bilhões sob gestão.

Veja a seguir a entrevista na íntegra e leia mais abaixo os destaques da conversa.

A hora e a vez dos emergentes?

Para ambos os entrevistados, 2021 será o ano da Bolsa e dos países emergentes. E a explicação está na “rotação de ativos”, termo que ganhou destaque no mercado no fim do ano e não deve sair de moda tão cedo. Consiste na migração de recursos de investidores de setores menos atingidos pela pandemia, como tecnologia, para aqueles mais penalizados, como bancos e commodities, além de ativos de maior risco, que voltam a emergir com as vacinas e perspectivas de reabertura das economias.

Do ponto de vista global, essa rotação também representa a saída de recursos de mercados desenvolvidos para mercados emergentes, que ganham atratividade com as incertezas se dissipando e o risco diminuindo.

Foi nessa toada que a bolsa brasileira registrou um saldo positivo de investimento estrangeiro de cerca de R$ 30 bilhões em novembro. Para os especialistas, esse pode ser só o começo.

“A China voltou a crescer e puxar uma demanda grande por commodities. Na nossa Bolsa, setores de consumo se beneficiaram da queda dos juros. Mas tem uma parte importante da Bolsa associada a commodities e bancos, dois setores que, globalmente, foram muito penalizados. Nós começamos a ver essa rotação a favor desses setores, mas esse processo só começou. Ainda tem bastante dinheiro para vir,” diz Azevedo, sócio-fundador da Ibiuna.

O estrategista-chefe da XP destaca que, apesar de a entrada líquida de R$ 30 bilhões em novembro marcar o recorde histórico de investimentos estrangeiros na B3 em um mês, o valor equivale a apenas duas horas de negociação das ações da Apple nos Estados Unidos. “Hoje o Brasil representa menos de 1% do valor de mercado das ações globais; e de apenas 4% dentro do índice de emergentes, percentual que chegou a 18% no fim do ‘superciclo das commodities’, em 2007”, diz.

Agora, com a expectativa de um novo superciclo de commodities, puxado pela China, o Brasil tem a oportunidade de retomar seu espaço no mercado global. “Esse cenário é extremamente positivo para mercados emergentes, principalmente os mais cíclicos, como o Brasil. Então eu concordo bastante com o Rodrigo que esse fluxo estrangeiro realmente é positivo, mas parece ser apenas o começo”, acrescenta Ferreira.

Ambos ressaltaram, porém, que todo esse potencial pode ir por água abaixo a depender da questão fiscal. Para atrair mais recursos, o governo deve mostrar que a dívida pública tem uma trajetória sustentável e manter o compromisso com o teto de gastos (mecanismo que impede que as despesas públicas subam acima da inflação), sobretudo após as medidas adotadas na pandemia, que elevaram a dívida bruta do país de 75,8% do PIB para mais de 90% do PIB em menos de um ano.

Recorde de caixa nas empresas

As perspectivas positivas para a Bolsa são reforçadas pelas taxas de juros próximas a zero, que anulam os retornos reais (acima da inflação) da renda fixa e empurram investidores para a renda variável. Para Azevedo, isso faz parte de um movimento deliberado dos bancos centrais.

É o incentivo que os bancos centrais estão dando, falando assim: ‘Tomem risco’. Tem um lado de buscar mais retorno, mas tem um lado de o investidor financiar as empresas, que se beneficiam desse financiamento amplo e mais barato para fazer novos investimentos e, em teoria, fazer a economia crescer. […] Tem um arcabouço macroeconômico empurrando isso que é muito importante”, avalia o ex-diretor do BC.

Além do estímulo monetário, via juros baixos, as empresas também bebem da torneira dos estímulos fiscais, que resultaram em uma liquidez recorde em seus caixas.

De acordo com dados da Refinitiv, compilados pela revista britânica The Economist, as empresas não financeiras levantaram neste ano a impressionante cifra de US$ 3,6 trilhões em capital proveniente de investimentos públicos. E, com a distribuição de dividendos suspensa ou reduzida na pandemia, o dinheiro mantido em caixa pelas 3 mil empresas não financeiras de capital aberto mais valiosas do mundo saltou de US$ 5,7 trilhões no ano passado para US$ 7,6 trilhões neste ano.

Para Ferreira, esses caixas repletos de liquidez devem se converter, em 2021, em maior retorno aos acionistas, por meio da distribuição de dividendos e outras bonificações, além de um impulso recorde de fusões e aquisições – que já voltaram a ganhar força no fim de 2020.

O estrategista-chefe da XP acrescenta que, nos últimos anos, as empresas listadas na bolsa brasileira ainda fizeram o dever de casa cortando custos e se digitalizando, o que deve render frutos nos próximos anos.

“No ano que vem, o lucro médio das empresas do Ibovespa deve crescer 150% sobre 2020. Obviamente, estamos vindo de uma base extremamente baixa, então esse número deve ser considerado com uma ‘pitada de sal’. Mas o mercado já espera também aumento de lucro superior a 12% em 2022, crescimento robusto, em cima de uma base já bem mais forte do ano que vem”, diz. “Só esse crescimento de lucro dos próximos dois anos deve fazer nossa Bolsa continuar subindo de preços, sem ficar mais cara. Isso é bastante importante.”

Na entrevista na íntegra, Ferreira e Azevedo destacam ainda quais são exatamente os setores e as empresas que mais devem capturar o movimento de rotação do mercado e se destacar em 2021.

Mas há riscos: bolha de ativos e inflação pressionada

Apesar de todo o otimismo, ambos concordam que toda essa liquidez pode inflar os preços de ativos e formar bolhas no mercado de ações. “Eu diria que existe um risco de um superaquecimento nos preços de alguns ativos. Temos que ficar de olho em potenciais riscos de bolha, dado esse excesso de liquidez com uma economia em recuperação”, diz Ferreira.

Azevedo concorda. “Esse é o tema do momento, né, é a grande discussão: ‘Será que tudo isso vai acabar em inflação e gerar uma grande bolha de ativos?’”.

No vídeo, ambos discutem o que pode fazer essa bolha estourar e quando isso pode acontecer, além das perspectivas para inflação no Brasil e no mundo. Na entrevista, o ex-diretor do Banco Central comenta, por exemplo, que possíveis bolhas e pressões inflacionárias devem começar a preocupar os países emergentes antes dos mais riscos  e diz quando isso deve acontecer.

Por fim, eles discutem as perspectivas para a renda fixa, respondendo quando os juros devem voltar a subir, quanto, e como o investidor deve ajustar sua carteira para incorporar as oportunidades também no mercado de títulos públicos e privados. Não deixe de conferir o conteúdo na íntegra.

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